18 de fevereiro de 2013

As leis da natureza... ou dos cientistas?


Diz o informativo da FAPESP, intitulado "Economia ecológica", de 20/7/2009 (grifos meus. Os comentários virão numa próxima postagem):
"Segundo pesquisadores reunidos em mesa-redonda durante a 61ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada na semana passada em Manaus, olhar a Amazônia sob o ponto de vista da perspectiva econômico-ecológica deve provocar uma mudança de paradigma à medida que os problemas e desafios da região passem a ser tratados prioritariamente com enfoque ecológico, antes de o aspecto econômico vir à tona.
Clóvis Cavalcanti, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, destacou que os conceitos de meio ambiente são anteriores à economia. “Mas o meio ambiente pode e precisa existir sem a sociedade. O sistema econômico mundial deve se submeter e ser subordinado ao ecossistema e às leis da natureza”, disse o também membro fundador da Sociedade Internacional para a Economia Ecológica (ISEE, na sigla em inglês) e da Sociedade Brasileira de Economia Ecológica (Ecoeco).
“Estamos acabando com o meio ambiente e com a vida social da Amazônia em troca de promessas muitas vezes vazias de aceleração do crescimento e do bem-estar humano, em que o aumento do PIB [Produto Interno Bruto] traz a destruição dos valores ambientais e culturais cultivados ao longo de séculos de convivência entre os habitantes da região”, disse.
Gonzalo Vasquez Enriquez, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), disse que “não é possível só crescer de forma exponencial, pois essa curva ascendente levaria o mundo a uma situação de colapso”, alertou ele, citando em seguida a importância do relatório The limits of growth, produzido em 1972 por uma equipe do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, para a organização não governamental The Club of Rome.
O relatório trata de problemas cruciais para o desenvolvimento da humanidade, como energia, poluição, saneamento, saúde, ambiente, tecnologia e crescimento populacional. “A sociedade pode e está destruindo a Amazônia, mas de alguma forma a humanidade terá que pagar por isso”, disse Enriquez.
Os avanços tecnológicos não estão sendo suficientes para resolver o problema dos limites físicos dos bens naturais. O crescimento pelo crescimento está deixando cada vez mais evidente o limite dos recursos do meio ambiente, não trazendo soluções técnicas para a manutenção da biodiversidade e promovendo o aumento do poder e da necessidade de consumo pela sociedade moderna”, afirmou.
Para Philip Fearnside, pesquisador titular do Departamento de Ecologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), um grande desafio para o futuro da Amazônia é a criação de meios de conversão dos serviços oferecidos pela floresta, como a manutenção da biodiversidade e dos estoques de carbono, em um fluxo de renda para as comunidades que garanta o desenvolvimento sustentável da região.
É bem melhor transformar algo que é sustentável em desenvolvimento do que tentar fazer com que uma forma de desenvolvimento não-sustentável se converta em sustentável”, disse o pesquisador que há mais de 30 anos tem se destacado no trabalho de apoio à valorização dos serviços ambientais da Amazônia.
“O desenvolvimento implica a criação de uma base econômica de suporte para a população e, a fim de ser sustentável, essa base de suporte deve manter-se por muito tempo”, apontou Fearnside que, antes do Protocolo de Kyoto (1997), já havia proposto a compensação dos serviços ambientais da floresta amazônica com base na manutenção de estoques de carbono, ou com pagamentos na forma de uma porcentagem anual do valor dos estoques.

Que a cidade não seja esquecida nesta eleição

Mais um post "migrado". Este, datado da época da última eleição em São Paulo. Evidentemente, defasado, e já podendo ser revisto: em grande parte, o desejo expresso no post não foi correspondido - as questões federais (muito por conta da mídia e do candidato tucano) ocuparam grande parte do debate, e em outra parte, questões absolutamente "paroquiais" (moralismo em política, sempre nefasto...). Mas houve sim um bom número de boas surpresas a respeito disso. E o resultado: bom, esperemos pelos próximos anos, mas estar livre por ora do kassabismo-serrismo já é motivo de muitas comemorações!


De passagem por aqui, quero deixar registrado um rápido comentário sobre o que desejo da eleição deste ano aqui para São Paulo: que o debate possa ser pautado pelos projetos de cada candidato para esta cidade. Todo mundo sabe o peso e a importância política da capital paulista no cenário nacional, mas sou terminantemente contra a ideia de que o que está em discussão aqui é o país. Não é: esta eleição não pode ser tomada como um simples “ensaio” para 2014.

Esta proposição só interessa a quem vem governando esta cidade há dez anos, e que é responsável por uma das administrações mais desastrosas que eu testemunhei na minha vida (comparável à de Pitta). Sim, estou falando do candidato Serra. A minha única certeza, neste momento, é que não quero a continuação da gestão neocon de Kassab-Serra para a minha cidade.

O que eu espero dos candidatos é que demonstrem entender o que é a vida urbana em seu sentido mais amplo, e provem ser capazes de assumir compromissos com uma urbanidade mais generosa, menos ranzinza, tacanha e repressora, como a que tem sido praticada nas últimas gestões. Chega de repressão a artista de rua, de cerceamento da vida noturna, de violência contra as manifestações coletivas no espaço público.

Quero que a cidade volte a ser vista como uma construção coletiva e como o lar da diversidade social, não da tentativa de normatizar o comportamento de seus cidadãos. Quero que os espaços de discussão pública sejam restaurados e ampliados. Quero que a sociedade civil ganhe espaço e voz. Quero que as subprefeituras deixem de ser uma extensão dos quarteis.

Habitação & direito à moradia, transporte & mobilidade urbana, uma revisão do Plano Diretor que não se limite a beneficiar a especulação imobiliária, uma política ambiental digna deste nome, uma efetiva melhoria do atendimento ao cidadão pelos serviços públicos, sobretudo os da municipalidade. A pauta de necessidades da nossa cidade é suficientemente ampla para que nossos candidatos se dediquem primordialmente a ela: não é Dilma que está em julgamento nesta eleição, e sim Kassab.

Manifestação política


O post original é de outro blog meu, e estou transferindo para cá, onde faz mais sentido. Foi escrito e publicado em 23/09/10 e, em muitos aspectos, está defasado. Mas em outros permanece integralmente atual e válido, por isso achei interessante postá-lo novamente.

Amigos, a briga de torcidas uniformizadas que está virando esta eleição está ultrapassando os limites do aceitável. Ainda assim, gosto de ver o quanto as pessoas se mobilizam nessas épocas, e discutem o assunto a todo tempo. Decidi escrever alguma coisa hoje só porque algumas bobagens que andam sendo veiculadas não podem ficar sem resposta.
O pior de tudo é ter que ver, diariamente, a disposição antidemocrática de quem vai perder a disputa eleitoral federal. Já inventaram de tudo: "mexicanização" do Brasil, "ausência de oposição"... chega a ser engraçado: será que todo mundo que passou oito anos batendo no PT que nem Judas em sábado de Aleluia, decidiu que vai se calar nos próximos quatro? É a minha única explicação para essa tal ausência de oposição. O PSDB continua firme e forte em São Paulo, Aécio em Minas... quem está perdendo é o Serra e sua gangue, e a mídia, que continua não entendendo o que está acontecendo no país.
A última cartada é um tal "manifesto" contra uma suposta "censura" à liberdade de imprensa e de opinião no país. Se quiser perder seu tempo ou se irritar à toa, aqui vai o link. Eu tenho minha própria opinião a respeito. Não concordo com os argumentos desse manifesto, e não aceito que se queira rotular de autoritário um governo em que a crítica nunca foi proibida. Se houvesse qualquer intenção de "tolher a liberdade de expressão ou de imprensa", não teríamos diariamente o denuncismo, a profusão de calúnias e a parcialidade que têm marcado a atuação de veículos de imprensa como o Estadão, a Folha, o(a) Globo, a Veja principalmente.

Que esses veículos tenham sido criticados por integrantes do governo e do PT é nada menos do que natural diante do tom com que tem sido acusados. Isso está muito longe de isso significar que querem "calar a crítica". Pelo contrário, quem critica tem que estar disposto a ser também criticado. Ou, como já dizia minha avó: quem fala o que quer ouve o que não quer. Não vejo, nas atitudes tomadas pelo governo, uma tentativa de censurar a imprensa, mas para mim está claro que numa sociedade dita "da informação", os veículos de comunicação devem assumir responsabilidades (e ser responsabilizados) na mesma medida em que tem o suposto "direito" de dizer o que bem entendem.

Assim como repudio o autoritarismo, repudio também o elitismo. E é isso que vejo em muito da crítica à aprovação que o governo tem recebido: termos como "populismo", "assistencialismo" (vide abaixo) e tantos outros são usados a torto e a direito sem nenhum objetivo que não o de desqualificar um "oponente" - e não aquilo que se espera em uma democracia, que é a tolerância e o respeito a que você se refere. Fora minha opinião de que isso mostra o quanto uma parcela da população ainda não aceita que as pessoas menos articuladas, menos instruídas e menos favorecidas também participem do jogo político legitimamente, também não vejo nenhum - repito, nenhum - crítico do governo petista que se dê ao trabalho de discutir em termos minimamente respeitosos. Isso é democrático?
Não tem nada mais longe de "assistencialismo" do que a política de proteção social deste governo, e quem me diz isso é um conjunto de assistentes sociais que trabalham comigo - muitas deles nem petistas são. Fora isso eu também tenho oportunidade de testemunhar pessoalmente o quanto a circulação inédita de dinheiro em certas localidades pelo Brasil afora está mudando relações há muito estabelecidas de dependência, subserviência e submissão da população pobre. Não vê quem não quer, ou quem não quer se dar ao trabalho de olhar para a sociedade de uma posição que não seja do alto.
Outra coisa: não há nada mais longe do "independentemente das preferências políticas" do que este manifesto. Ele é claramente um manifesto pró-Serra, e pró-mídia, por extensão. Ou por pleonasmo.
Não há um "projeto" de eliminar partidos políticos, não dá para levar isto a sério. A declaração do Lula sobre o DEM é exatamente a mesma e no mesmo tom com que Jorge Bornhausen se referiu, há poucos anos, ao PT. Na época, não me lembro de ninguém que hoje se mostra tão preocupado com os rumos da democracia ter publicado manifesto nenhum a respeito. Vou além: não sei de nenhuma tentativa do PT de cassar registro de partido ou impugnar candidatura de adversário. E se queremos falar de coisas concretas, e não de hipóteses mirabolantes, temos que lembrar que quem apoiou uma ditadura de fato foi o que hoje se autointitula "Democratas" (nunca um nome foi tão inapropriado...).
A liberdade é mesmo um valor muito caro a todas as pessoas. Liberdade de votar em quem quiser é também uma delas. Então você está no seu direito de manifestar sua opinião, e eu não vou me opor a isso, embora discorde quase completamente. Só devo lembrar que "liberdade" é um conceito bastante polissêmico, e que se presta a muitas interpretações. Uma liberdade inédita a muitas pessoas é a de ter seu próprio dinheiro e administrá-lo como achar melhor, sem precisar ser tutelado. E aí está a diferença fundamental entre o Bolsa Família e os programas que, segundo alguns, o originaram, como Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, etc.
As urnas não vão afastar esse governo do poder, sinto muito. E não se trata de "política assistencialista" ou de "desempenho econômico", mas de toda uma parcela da população que se reconhece nestas políticas, se sente representada por elas. Pessoas que sentem que não estão apenas, como dizia Plínio Marcos, assistindo da arquibancada sem influir no resultado. Goste você e os signatários desse manifesto, essas pessoas é que estão influindo no resultado. Livremente, no voto. Democraticamente.

29 de outubro de 2012

Jane Jacobs contra a Cidade de Muros

Há tempo havia iniciado uma discussão sobre segurança e o Campus da USP; por algum motivo, um post que escrevi a respeito se perdeu, e nele eu prometia uma continuação. Aqui está o que seria essa "continuação", sem o tema que lhe deu origem (paciência, a questão saiu um pouco dos holofotes da mídia, embora a militarização do campus não tenha sido revertida até o momento). Aqui, o foco não será tanto a questão universitária, mas sim a concepção de segurança que justifica a formação da “cidade de muros” e a maneira de lidar com a “insegurança” da cidade atual. Esta concepção de segurança, poderemos ver, é intimamente ligada à maneira como a segurança tem sido praticada também na Cidade Universitária da USP em São Paulo – e não poderia ser diferente, sendo a universidade parte da sociedade (por mais que seus dirigentes insistam em tratá-la como uma entidade isolada desta).
A questão que eu propunha a discutir era a seguinte: será o fechamento a melhor forma de lidar com a questão da segurança? A esta questão acrescento outra, que será o foco da discussão aqui: há algo que o urbanismo tenha a dizer a respeito desta questão e a contribuir para seu encaminhamento?
Um texto já clássico do Urbanismo, da socióloga e escritora norteamericana Jane Jacobs, dedica um capítulo inteiro a discutir o papel das ruas na promoção da segurança. As proposições de Jacobs não podem deixar de ser consideradas provocativas, polêmicas, mas têm sua validade, sobretudo no papel de desmantelar e colocar em xeque algumas concepções e preconceitos comuns sobre o que causa a “insegurança” nas cidades, e a maneira como lidar com ela. Apresentar e discutir brevemente essas proposições são os objetivos básicos deste texto.
JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
Logo de cara, a autora vai diretamente de encontro a uma das concepções mais arraigadas de uma cidade como São Paulo: “As ruas das cidades servem a vários fins além de comportar veículos; e as calçadas – a parte das ruas que cabe aos pedestres – servem a muitos fins além de abrigar pedestres”. Parece uma formulação banal, mas não é. As funções das ruas e calçadas não se limitam à circulação e ao deslocamento. Não são, em outras palavras, apenas lugares de passagem, mas também de permanência. As ruas e calçadas só fazem sentido se consideradas junto com as atividades que a moldam: “A calçada por si só não é nada. É uma abstração. Ela só significa alguma coisa junto com os edifícios e os outros usos limítrofes a ela ou a calçadas próximas” (p. 29).
O que isto tem a ver com a segurança urbana? Bem, uma das características intrínsecas às grandes cidades é a “multidão”, a grande concentração de pessoas que não têm necessariamente vínculos entre si: as metrópoles “estão, por definição, cheias de desconhecidos”, diz a autora, acrescentando que “mesmo morando próximas umas das outras, as pessoas são desconhecidas”. A presença do “estranho” não é, portanto, a condição para a segurança, uma vez que este é parte constituinte da própria metrópole. Inversamente, é preciso pensar em como promover a segurança (ou, melhor dizendo, a sensação de segurança) mesmo na presença do desconhecido.
O destaque dado ao fato de que se trata de uma sensação de segurança se justifica porque a sensação não se baseia necessariamente numa realidade objetiva: “Não é preciso haver muitos casos de violência numa rua ou num distrito para que as pessoas temam as ruas. E, quando temem as ruas, as pessoas as usam menos, o que torna as ruas ainda mais inseguras” (p. 30). Pois é este círculo vicioso que, em São Paulo, em vez de ser combatido, é continuamente reforçado. Ruas repletas de muros fechados não são mais, e sim, menos seguras.
Além disso, o problema da violência e insegurança não pode ser atribuído a: (i) os cortiços, (ii) as áreas mais antigas da cidade, (iii) os grupos minoritários, pobres ou marginalizados. Esta proposição é mais dificilmente aceita pelo senso comum, que associa rapidamente pobreza, marginalidade e violência. Mas quem vive em uma dessas áreas ou pertence a esses grupos deve ter percebido que há lugares e lugares, grupos e grupos. Mesmo nas periferias mais “violentas” há locais em que os moradores se sentem mais confortáveis e seguros de andar, da mesma forma que em certos bairros ricos e luxuosos as ruas são absolutamente ermas, causando grande receio em quem as percorre.
Ocorre que, independentemente do perfil socioeconômico da população que habita ou permanece no entorno dessas ruas, obtém-se a sensação de segurança pela conjugação de múltiplos fatores, dos quais mesmo o policiamento é secundário. A ordem pública não é mantida basicamente pela polícia, mas “fundamentalmente pela rede intrincada, quase inconsciente, de controles e padrões de comportamento espontâneos presentes em meio ao próprio povo e por ele aplicados”. Uma vez que a segurança – e, especialmente, a sensação de segurança – depende dessa rede de comportamentos, é preciso que a rede seja grande o suficiente para produzir “comportamentos espontâneos” em relação ao lugar, e isso não pode ser obtido de uma população rarefeita e esparsa. Daí que “o problema da insegurança não pode ser solucionado por meio da dispersão das pessoas”. Mais gente, mais olhos, mais usos, mais segurança.
No entanto, para que mais gente signifique também mais usos, é preciso que haja gente de diferentes tipos. Do contrário, em lugar de haver mais usos, haverá apenas uma intensificação do mesmo uso. É preciso ser possível acolher diversos usuários com práticas e interesses diferentes, e isso também inclui acolher “estranhos”. As condições para isso, de acordo com Jacobs, seriam três (aqui está um dos pontos fundamentais de sua análise):
  • Nítida a separação entre o espaço público e o espaço privado: em franca oposição à diluição modernista (corbusiana ou howardiana) entre espaços públicos e privados das propostas, Jacobs defende que a separação entre ambos seja nítida, definindo claramente os espaços pelos quais cada usuário se sente individualmente responsável. Esta tese contraria, decerto, a maioria das proposições de inspiração socialista, e aqui se evidencia a filiação de Jacobs a um paradigma liberal. 
  • Olhos para a rua: os edifícios devem estar voltados para a rua: condição lógica para que a rua seja “vigiada” é que tenha locais de onde observá-la. A crítica é às “empenas cegas”, grandes paredes de edifícios que, voltando-se para o miolo da quadra, desprezam a rua e a circulação. Sob o pretexto do conforto e do silêncio, é muito comum que se volte para as ruas os cômodos de serviços e as áreas molhadas da casa, reduzindo a possibilidade de que as áreas de permanência internas aos edifícios aproveitem-se da “paisagem” e das “vistas”.
  • A calçada deve ter usuários transitando ininterruptamente, “tanto para aumentar o número de olhos atentos quanto para induzir um número suficiente de pessoas de dentro dos edifícios da rua a observar as calçadas”. Os “olhos da rua” garantem a observação “de fora” e “do alto”, mas esta não é suficiente: mais importante ainda é a visão “de dentro” e do nível da rua. Esta só pode ser garantida com um número razoável de transeuntes, usuários da rua, durante a maior parte possível do tempo.
O enfoque de segurança urbana de Jacobs incide principalmente sobre o uso da cidade, muito mais do que ao policiamento. Para ela, “é inútil tentar esquivar-se da questão da insegurança urbana tentando tornar mais seguros outros elementos da localidade, como pátios internos ou áreas de recreação cercadas” (p. 36). Ou seja: enclaves fortificados e vigiados não tornam a cidade mais segura. Ao invés disso, apenas agravam uma situação de tensão social, ao enfatizar a desconfiança em relação ao “estranho” e, portanto, a hostilidade contra os desconhecidos, tidos como potenciais “criminosos”. A estratégia de segurança das ruas que Jacobs considera mais adequada é assim descrita pela autora: “A segurança das ruas é mais eficaz, mais informal e envolve menos traços de hostilidade e desconfiança exatamente quando as pessoas as utilizam e usufruem espontaneamente e estão menos conscientes, de maneira geral, que estão vigiando” (p. 37).Mesmo o recurso à iluminação deve ser relativizado: aumenta o alcance da vista, mas não tornam a rua mais segura por si só.
Para que esta vigilância inconsciente ocorra, seria preciso que um “requisito básico” de vigilância fosse assegurado, e ele consiste na presença de certo número de estabelecimentos e outros locais públicos, dispostos ao longo das calçadas e, entre eles, estabelecimentos que sejam utilizados de noite. Os benefícios são enumerados da seguinte forma:
  • Dão às pessoas motivos para usarem as calçadas;
  • Fazem com que as pessoas as percorram;
  • Os próprios lojistas e outros pequenos comerciantes costumam incentivar a ordem;
  • A movimentação de pessoas em si é um atrativo para mais pessoas.
Isso representa uma importante mudança de perspectiva, e requer que certas concepções, que Jacobs considera “puritanas e utópicas” do planejamento urbano ortodoxo sejam abandonadas. Entre essas, um modelo normativo de “como as pessoas devem gastar seu tempo livre” e, estendendo esse modelo à cidade, a confusão entre esse “moralismo” e “conceitos referentes ao funcionamento das cidades”: essa confusão resulta em que “os bares e, na verdade, todo o comércio, são malvistos em vários bairros precisamente porque atraem estranhos” (p. 42). Não há como não pensar em São Paulo ao considerar essa observação. A vida noturna da cidade não a torna mais insegura, pelo contrário. A circulação de pessoas em diversos horários do dia – o que significa que são também pessoas diversas – é amplamente desejável, e não um problema. “As cidades não apenas têm espaço para essas diferenças e outras mais em relação a gostos, propósitos e ocupações; também precisam de pessoas com todas essas diferenças”.
Essa diversidade é não apenas útil e desejável: em grande parte, ela é inevitável. A menos a porção pública da cidade (seus espaços não domésticos, não privativos) é necessariamente aberta à frequentação por pessoas de fora. Ignorar isso provoca, segundo Jacobs, uma de duas conseqüências: ou as pessoas de fora continuarão a frequentar o local, “e haverá entre elas estranhos que não são nem um pouco bem-comportados”, ou serão propostas medidas para manter as pessoas de fora afastadas do local. O resultado, tanto num caso como noutro, é a sensação de insegurança: as pessoas “estranhas” serão percebidas como ameaçadoras, e ao mesmo tempo perceberão a hostilidade dirigidas a elas, reagindo àquela hostilidade. Seguindo este modelo de atuação que tenta negar a diversidade e a presença do “estranho”, restam três maneiras de conviver com a insegurança:
  1. “Deixar o perigo reinar absoluto e deixar que os infelizes que defrontarem com ele sofram as conseqüências”. Maneira como as regiões periféricas das cidades brasileiras, São Paulo em particular, têm sido tratadas historicamente pelas elites; 
  2. “Refugiar-se em veículos”, estratégia que produz um círculo vicioso: carros-refúgio são mais visados, e à insegurança neles se responde com blindagens e apetrechos de segurança cada vez mais sofisticados, caros – e não necessariamente mais eficazes; 
  3. “Cultivar a instituição do Território”, isto é, enclaves fechados e protegidos em si mesmos, com severas restrições à entrada de desconhecidos e com uma população homogeneizada e seleta. Estratégia de exclusão e privatização dos espaços, porém limitando sua atuação aos seus espaços confinados, sem capacidade de promover qualquer melhoria na segurança do entorno, do contexto mais geral.
Resta pouca dúvida de que, em São Paulo, essas têm sido as maneiras de lidar com a “insegurança” e a “violência”. Aqui, traduzem-se no isolamento entre grupos sociais e a “condenação” de populações inteiras às ações de uma polícia que não hesita em fazer uso da violência; no emprego cada vez maior automóveis e na recusa ao transporte público; na constituição de espaços fortificados e militarizados, dos edifícios de escritórios, shopping centers e condomínios fechados; no emprego de segurança privada (e privativa). Enquanto respostas emotivas e desinformadas a uma sensação de insegurança, é compreensível que estas sejam as “soluções” dadas ao problema. Por uma perspectiva mais ampla e aprofundada do problema, contudo, esta solução não apenas é ineficaz e inútil: é também contraproducente, produzindo um “círculo vicioso” em que a violência tende a gerar apenas mais violência, em que a insegurança produz apenas mais insegurança. É preciso, portanto, romper com este padrão.










4 de fevereiro de 2012

Dez pontos sobre direito de propriedade e direito à moradia

A reação de boa parte da população de bem aos recentes episódios de reintegração de posse (em especial o Pinheirinho) foi reveladora. Parece haver certo rancor em relação aos movimentos sociais e às conquistas que esses arrancam (arrancam, não ganham) aos governos, como se essas fossem privilégios; e há uma defesa intransigente do direito do proprietário de fazer o que quiser daquilo que é seu. A isso está associado ainda um medo bastante infundado de que a defesa de movimentos sociais que têm como modus operandi as ocupações abra brecha para um movimento “desenfreado” de “invasões” indiscriminadas.

É possível escrever um tratado sobre essas questões (na verdade, numerosos livros já foram escritos, e qualquer um que tenha real interesse na discussão sobre a questão da moradia e habitação tem muito material à disposição). Mas, no espaço de um texto de internet, acho que vale mais a pena pontuar alguns aspectos. Claro que fico à disposição para discuti-los, na medida das minhas condições (de tempo, principalmente….). Aqui vão:

  1. Direito não é privilégio. Se os direitos não são para todos, quem está errado não é quem conseguiu fazer valer o seu direito, e sim quem continua atuando para que os direitos não alcancem todos os demais. Então, em vez de reclamar de quem conseguiu, temos é que lutar para que todos os outros também consigam. Muita gente acha que “se o meu direito não é respeitado, por que o dos outros é?”. E daí parece derivar a ideia de que “se eu não tenho, que ninguém tenha”. É uma inversão, o raciocínio que eu defendo é: lutemos pelos direitos para todos. Se eu não tenho e outros mostram que, coletivamente, é possível conquistar a realização de direitos, aí está o caminho: a reivindicação coletiva.
  2. Especificamente em relação à moradia, acredito que, independentemente da condição econômica, nenhum ser humano pode viver sem um abrigo. Se não pode arcar com a compra de um imóvel, isso deve significar que ele não terá como bancar seu conforto e nenhum “luxo”. Mas um teto não é luxo e é muito mais do que conforto: é condição básica de sobrevivência.
  3. Programa habitacional, portanto, não é caridade – é garantia de condições mínimas (e são, de fato, mínimas: não conheço nenhum conjunto habitacional que possa ser considerado mais confortável e luxuoso do que um condomínio privado.
  4. Mesmo que fosse caridade: a maioria das (se não todas) religiões ensinam a caridade e a solidariedade com quem sofre. Será que as pessoas que demonstram tanta raiva contra os que moram nessas condições não conseguem se apiedar em nenhum momento contra o que é, antes de tudo, sofrimento? Basta que nos coloquemos no lugar, por um instante, daqueles que não têm teto…
  5. Ocupação é diferente de invasão: basicamente, a diferença é que no primeiro caso a área ocupada está vazia, enquanto uma invasão envolve a expulsão de quem ocupava o lugar. Os moradores do Pinheirinho ocuparam uma área completamente abandonada. A polícia invadiu essa ocupação e expulsou quem ali estava. Ou seja, caro leitor: você não precisa ter medo de um dia ser expulso da sua casa por “invasores”. Se você ocupa sua propriedade, você será respeitado.
  6. Mas se o terreno tem dono, o dono pode fazer o que quiser com ele, até deixá-lo abandonado, certo? Errado. A Constituição, ao mesmo tempo em que garante o direito de propriedade, obriga a propriedade a ter algum uso que demonstre que ela cumpre uma função social. Se é habitada, ou se abriga qualquer atividade produtiva, ou mesmo se é destinada ao lazer no fim de semana, ela cumpre uma função. Se ela é preservada para fins de conservação ambiental, mesmo que ninguém ali more, também cumpre. Se ela é deixada “ao léu”, abandonada e sem nenhuma destinação para ela, não cumpre. Está, diante da constituição, em situação irregular – para não dizer ilegal.
  7. Para que serve, então, o direito de propriedade? Serve para que quem possui uma propriedade pode decidir qual função social quer dar a ela – qualquer uma, mas necessariamente alguma. Também garante ao proprietário o direito de se desfazer dela da maneira que julgar conveniente: doar, vender, alugar, arrendar, emprestar, etc. Também garante que, se o governo decidir dar qualquer outro uso àquela área, o proprietário tem o direito de ter sua propriedade adquirida – comprada, ou “desapropriada” – mediante indenização correspondente ao valor daquela propriedade. Esse valor tem que ser estabelecido e acordado.
  8. Reintegração de posse: se a propriedade cumpre uma função social, e mesmo assim é ocupada ou invadida, o proprietário tem o direito de reivindicar sua reintegração. E esse é o argumento usado sempre para justificar as ações recentes. Mas, na minha opinião, ela só se justifica se aquela condição básica (“a propriedade cumpre uma função social”) é atendida. Aqui não estou falando como jurista, advogado ou nada disso, que eu não sou. Mas acho que consigo entender o “espírito da lei” mesmo quando não domino a “letra da lei”.
  9. Por último, há uma idéia de que quem “descumpre” a lei deve ser “castigado”, e daí qualquer ação violenta da polícia se justifica. Eu vejo uma diferença fundamental entre a noção de “punição” e a de “castigo”: sem querer entrar em debates semânticos, eu acredito que uma punição que respeite direitos humanos é aquela em que a pessoa punida é privada de certos direitos (por exemplo, um preso é privado do direito de ir e vir). E alguns direitos são “inalienáveis”, ou seja, ninguém pode ser privado deles: o direito à vida, o direito à integridade física, são dois dos principais. Então, o “castigo” que envolva causar dor ou danos físicos não pode ser aceito. E nem é necessário: existem formas de punir sem castigar.
  10. Não há nenhuma prova definitiva de que o castigo cumpra de fato qualquer função disciplinadora eficaz. É possível que cause revolta, medo, desejo de vingança, pode causar os mais diversos traumas psicológicos. Não há nenhuma garantia de que necessariamente, vá “corrigir” ninguém. A pedagogia de hoje ensina que o exemplo, a motivação são muito mais eficazes. Punições são possíveis, desde que associem claramente a infração com a correção.

30 de janeiro de 2011

Vou sambar noutro lugar… de novo?

Um dos maiores sambistas de São Paulo, Geraldo Filme, escreveu um samba em 1969 intitulado Vou sambar noutro lugar, relatando a construção do viaduto Pacaembu e como a obra praticamente apagou um dos lugares mais importantes da história do samba de São Paulo, o Largo da Banana:
Fiquei sem o terreiro da escola / Já não posso mais sambar. / Sambista sem o Largo da Banana / A Barra Funda vai parar. / Surgiu um viaduto, é progresso / Eu não posso protestar / Adeus, berço do samba / Eu vou-me embora, vou sambar noutro lugar.
Traducional ponto de encontro dos negros, que trabalhavam no carregamento dos trens que chegavam à Barra Funda, o Largo da Banana se tornou um ponto de encontro de sambistas e praticantes da “tiririca”, ou pernada, a versão paulista da capoeira. Muitos dos principais nomes ligados à origem das mais tradicionais escolas de samba da cidade eram vistos frequentemente nas rodas do Largo.
Com a construção do viaduto, apagou-se não apenas um local da cidade, como tantos outros. O que se perdeu foi um lugar de referência fundamental da cultura popular da cidade. Se a noção de patrimônio cultural imaterial já existisse então, este seria um lugar perfeitamente enquadrável no que a UNESCO denomina paisagens culturais (ou lugares culturais), associados que são às “práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas - junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados - que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural".
Geraldo Filme identificou as forças que operavam a desmobilização do lugar dos sambistas: uma lógica que regia o crescimento (“progresso”), no qual a circulação automotiva era um imperativo inquestionável; e uma concepção de cidade em que a cultura popular (principalmente de negros) não tem lugar a não ser muito secundariamente, e apenas quando não interfere na “marcha do progresso” (que, sabemos bem, não é e nunca pretendeu ser inclusiva). Ainda mais num clima político extremamente autoritário, a elite dirigente não se dispôs a nenhuma transigência em relação ao patrimônio cultural da cidade, rasgando e destruindo seus lugares simbolicamente mais importantes. E Geraldo Filme sabia, como sambista acostumado a ser perseguido pela polícia apenas pelo simples fato de fazer samba, que “não podia protestar”.
Mas era um regime ditatorial, e hoje em dia a situação é diferente, certo? Não é bem assim. Mais uma vez, um lugar de samba tradicional e de referência da cidade pode dar lugar a um projeto de transporte. Estou me referindo ao metrô e o projeto da linha 6 (Lilás) e a ligação entre Brasilândia e São Joaquim, que terá estação na praça 14 Bis. Até agora, o projeto (que pode mudar, e espero que o seja) prevê a desapropriação justamente da quadra da escola de samba Vai Vai para concretização do projeto.
Não é demais perguntar: por que a Vai Vai? O que há de tão mais importante naquele pedaço que tenha que ser mantido, enquanto uma das mais antigas agremiações de samba da cidade pode perder sua quadra?
A desconfiança de que o caso do Largo da Banana esteja prestes a se repetir não é injustificada. Já faz algum tempo que as atividades da escola no Bexiga são motivo de tensões e conflitos com moradores (que, evidentemente, chegaram ali muito depois da escola e não têm nenhum vínculo com ela ou com a história do bairro). O samba virou, mais uma vez, o vilão da “paz” e da “segurança” no bairro.
Agora, tem-se um motivo quase incontestável para tirar a escola dali: em nome do “bem comum”, do interesse de “todos”, a escola deverá dar lugar ao metrô. E quem poderia se opor à expansão do metrô, ainda mais em tempos em que vemos, cada vez mais, a inviabilidade de se insistir no transporte automotivo na cidade. Da mesma forma como dificilmente alguém nos anos 1960 se oporia a que a cidade crescesse e expandisse sua rede viária.
Mas a questão não é ser “contra” ou “a favor” do metrô em si, mas à prática tão recorrente de apagamento sistemático da memória da cidade, especialmente dos lugares de significado relevante para nossas manifestações culturais populares. Ou, em linguagem ainda mais clara: os lugares de referência afetiva da população negra da cidade, ou das classes populares que fizeram da prática do samba um permanente exercício de resistência. Acredito, como arquiteto urbanista e como morador da cidade, que não há nenhuma – repito: NENHUMA – justificativa para que a estação e a quadra não convivam e sejam compatibilizadas.
Que ao menos uma vez a lógica funcionalista não seja tão insensível à cultura popular, ao lazer, a uma noção de cidade que não seja tão estritamente regida pela lógica econômica e "macro”, e leve em conta também a cidade dos usuários comuns e cotidianos dos lugares – aquilo que os mapas não conseguem mostrar. E se essa lógica tiver que prevalecer, que não seja se valendo de uma suposta impotência da população. A gente pode protestar.

22 de outubro de 2010

Um debate familiar


Licença para uma postagem bem longa... Hoje vi um texto ao qual senti necessidade de responder. O autor é ninguém menos que meu pai. Como ele fez do texto uma declaração pública, também vou responder em público. Nenhuma das duas opiniões é diretamente voltada à do outro, mas é claro que há grandes discordâncias entre as duas opiniões – eu, a favor de Dilma, e ele de Serra. Também acho que nenhum deles ache que vai, com o texto, mudar a opinião de ninguém. Mas quero aproveitar a chance de comentar o texto do meu pai porque, sendo ele como uma pessoa que respeito e admiro tanto, não vou cair na tentação fácil de apenas desqualificar seus argumentos, e muito menos ele próprio.
Esta é uma questão que discuti com minha esposa há pouquíssimo tempo, e é absolutamente oportuno que este texto tenha proporcionado a chance de explicitar alguns pontos de vista divergentes entre nós. E a divergência não pode ser reduzida a uma questão de caráter, muito menos de moral. Quando nos deparamos com um texto de uma corrente política diversa da nossa, é tentador tentar desqualificar o autor como um “reacionário” ou um “radical”, um “desonesto” ou um “ingênuo”, e por aí em diante. Não quero cair nessa tentação. Talvez eu nunca seja capaz de convencer meu pai – nem parentes, nem alguns colegas – sobre minhas opiniões, mas da mesma forma que trato o texto e o autor com respeito, quero que quem ler o que vou escrever encare o meu texto com a mesma disposição de dialogar.
O fato de haver tão grande disparidade entre a minha opinião e a de meu pai é, sem dúvida, um grande mérito dele. Se foi capaz de permitir que eu desenvolvesse minhas próprias opiniões, formular minhas próprias ideias e me sentir capaz de defendê-las mesmo em oposição às dele mesmo, eu só posso lhe agradecer. Agradeço discordando, mas debatendo, argumentando e respeitando. Talvez um dia nossos políticos e os que militam por eles, de ambos os lados, talvez sejam capazes disso também.
Os textos em azul são do texto original do meu pai, e em vermelho os meus comentários. Tratei de comentar apenas os pontos de discordância, então quem quiser ler o original, está no blog dele:

Mas ela representa a continuidade de um governo que, embora tenha feito avanços nas políticas sociais, imbuiu-se de tal arrogância que nega todos os avanços anteriores e nos quais se baseou.
Arrogância... no mínimo, teríamos que admitir arrogância dos dois lados, então. Está fresca na minha lembrança o episódio em que FHC disse que o povo brasileiro era “caipira”, ou quando, indagado sobre suas políticas neoliberais, classificou seus críticos de “neobobos”. Recentemente, José Serra desqualificou uma indagação de Heródoto Barbeiro sobre os pedágios nas estradas paulistas, denominando-a “trololó petista”. Ou mesmo quando classificam as políticas sociais como “populistas”, palavra mágica para desqualificar qualquer movimento para fora do elitismo que quase sempre caracterizou a ação do Estado no Brasil. Essa postura de desqualificação do interlocutor é, infelizmente, uma postura muito comum entre tucanos: recusam-se ao debate, porque consideram os interlocutores ignorantes. Não vejo nisso um exemplo muito bom de postura democrática, ou “republicana”, como alguns gostam de chamar.
Quanto a negar os avanços, há dois pontos aqui: um diz respeito à política monetária, que em grande parte foi mesmo uma continuidade em muitos pontos daquilo que foi feito antes, e não há como negar. Isso era um compromisso assumido já em 2002, com a “Carta aos Brasileiros”, que teve o papel de acalmar os ânimos exaltados do mercado financeiro à época, que temia choques heterodoxos à moda do Collor. Por outro lado, ainda na área econômica, o governo representou uma profunda modificação em relação ao governo anterior, assumindo um papel muito mais diretivo e ativo na economia. Isso tem muito a ver com o que os economistas costumam associar a uma inspiração “keynesiana”, ou seja: o Estado investindo e gastando como uma forma de promover a circulação de dinheiro e dinamizar a economia. Isto difere enormemente do governo anterior – que basicamente se ocupou em cortar gastos e “enxugar” o Estado – e não há como dizer que houve mera continuidade. Na crise de 2008 essa diferença ficou ainda mais evidente, com o governo promovendo investimentos e gastos (essa palavra que é quase o diabo para os neoliberais) numa política que os economistas denominam de “política anticíclica” (simplesmente isso, ninguém inventou a roda nesse episódio, o que foi feito é perfeitamente amparado pelas mais elementares teorias econômicas), que apenas difere do receituário neoliberal.
Como os avanços na área social são reconhecidos, vale apenas um comentário: é comum dizer que o Bolsa Família é mera continuidade dos programas do governo anterior, e disso também discordo, em dois pontos: primeiro, o aumento de escala foi tão significativo que foi necessário desenvolver uma estrutura de distribuição de recursos que os programas anteriores simplesmente não seriam capazes de prover; segundo, há uma diferença de concepção: enquanto se desagregava a verba em diversas “bolsas” (Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, etc), o governo direcionava e impunha aos beneficiários a maneira com que deveriam aplicar o dinheiro recebido. Com o Bolsa Família, os beneficiários ganharam autonomia (no sentido literal da palavra: autodeterminação) para decidir o que fazer com o dinheiro. Que tenham ocorrido casos de aplicação equivocada (sob nosso ponto de vista), é o preço a pagar pela autonomia. O governo, ainda assim, optou por não tutelar o “povo” e assumir que ele é consciente o suficiente para saber o que fazer com o dinheiro de que dispõe. Essa opção, aliás, é tão diametralmente oposta a qualquer definição de “populismo”, que só pode usá-la ainda quem não entendeu a política, não entende o que é populismo ou simplesmente não quer se dar ao trabalho de examinar a realidade. Ou as três coisas, que é o que eu acredito que os tucanos façam.

A negação sistemática, feita por Lula, de tudo o que veio antes o elevou a índices de popularidade inéditos. Mas, fruto de uma mente autoritária que reverencia todos os ditadores que conheceu, ela se baseia também na repetitiva afirmação de inverdades.
Vou comentar esse “autoritarismo” do Lula adiante. Quanto a reverenciar “todos os ditadores que conheceu”, acho que a afirmação precisa ser um pouco matizada. Talvez se queira referir a ditadores de orientação socialista. Sem entrar no mérito da questão dos regimes socialistas, que exigiriam um texto à parte, lembro de certa ocasião o Lula ter debatido com um líder político de um país do leste europeu recém-democratizado: esse líder acusava os regimes socialistas de autoritários e celebrava a abertura, ao que Lula chamou a atenção que, no caso da América Latina, alguns dos mais bárbaros regimes autoritários instaurados contavam com amplo e ativo apoio dos países “democráticos” (leia-se capitalistas). Talvez se lembre também de alguma declaração favorável do Lula ao regime militar brasileiro, mas também neste caso há um contexto a considerar: o comentário dizia respeito não ao autoritarismo, mas à atuação do Estado como protagonista econômico e sua capacidade de planejamento. Esses argumentos poderiam ser estendidos longamente, mas esse comentário serve para ao menos matizar o comentário, que eu também considero inverídico. De resto, a “repetitiva afirmação de inverdades” também é recurso da oposição, quando insiste em classificar o governo de “populista” quando os fatos dizem o contrário, quando insistiu à exaustão a tal tese do “terceiro mandato” por mais que o Lula a desmentisse, etc.

Lula dá-se ainda o direito de zombar da Justiça, fazendo escárnio publicamente até de decisões do Supremo Tribunal, e nada acontece. Só a sua verdade vale.
Minha opinião é que o que há aqui é um embate essencialmente político. Acho que faz parte do direito de expressão dizer que se discorda, e em quê. Se houve “escárnio” ao STF, não vejo exemplos mais edificantes na oposição. Se o STF merece respeito, também o merece um Presidente da República, seja quem for. Neste sentido, os oposicionistas (e algumas figuras truculentas como Arthur Virgílio, ACM Neto, ou outros, já disseram as maiores barbaridades sobre o Lula, sem nenhum constrangimento à “liturgia do cargo”). Assim, acho que é mais salutar do que prejudicial que as posições divergentes sejam explicitadas. Que eu me lembre, mesmo que tenha feito “escárnio” de decisões do Supremo, não houve nenhum movimento de “retaliação”, por exemplo. Acho que isso seria muito mais preocupante do que meras declarações públicas.

Hábil orador, distorce o sentido das palavras para lhes atribuir um significado conveniente, que venha em socorro de seus companheiros pegos em atividades ilícitas. Com ele, caixa-dois deixa de ser crime, vira tradição e nada mais acontece. Corruptos e corruptores tornam-se apenas aloprados e nada mais acontece.
Nisso não vejo diferença com nenhum outro governante anterior. Inclusive em relação ao “nada acontece”... lembremos que a expressão “dar em pizza” é muito anterior ao governo Lula. Muito se tem lembrado, ultimamente, a figura do Geraldo Brindeiro, o “Engavetador Geral da República”. Muita coisa tem sido denunciada, muita coisa é investigada. Quanto a punições, essas dependem muito mais da Justiça, cujas imperfeições e vícios não têm relação com o governo, são bem anteriores a este, e também beneficiaram muitos dos atuais opositores.

Mas ele próprio corrompeu o sindicalismo ao torná-lo servil ao seu projeto de poder.
Nem todo o sindicalismo se submeteu, mas há com certeza aqueles sindicatos e centrais que o apoiam, como já o apoiavam quando não era governante. Mas existe um grande debate no meio sindical a respeito de uma “cooptação” dos movimentos sociais (os sindicatos como apenas um caso) pelo governo, e está longe de ser um consenso entre eles que esta situação tenha sido benéfica para eles.

Há cerca de um ano ou mais, Lula “premiou” os grandes grupos sindicalistas com 100 milhões de reais a fundo perdido, sem a contrapartida da prestação de contas. Agradecidos, hoje os grandes líderes sindicais sobem ao palanque com Lula e Dilma.
Talvez isso tenha acontecido mesmo (não sou ingênuo de achar que essas coisas não ocorram, apenas duvido que sejam exclusividade deste governo). Ainda assim, reduzir a isto o apoio de líderes sindicais ao Lula e à Dilma é injusto e equivocado. Porque existe uma afinidade histórica entre o PT e os sindicatos, mesmo antes de haver qualquer “prêmio” de governos. O PT surgiu dos movimentos sindicais, das lutas operárias, e nunca foi segredo que a CUT é apoiadora do PT, desde muito antes de o partido alcançar qualquer cargo diretivo. E o PT no governo, ao contrário, tem sido alvo de muitas críticas de movimentos que o apoiaram – e se ainda o apoiam, isto se deve não apenas ao dinheiro, mas a uma oposição ao projeto adversário. Reduzir toda a questão apenas ao dinheiro é uma atitude despolitizadora.

Minha memória se recusa a esquecer a pergunta que Lech Walesa, o líder do movimento polonês Solidariedade, fez um dia a Lula: “Mas vocês, no Brasil, misturam sindicato com partido político?” Misturam, sim, e com o dinheiro das mensalidades e anuidades dos sindicalizados, não importando a que partido estes pertençam. Isso é um erro essencial, gravíssimo, mas o País já se acostumou a essa distorção ética. Minha contribuição mensal e anual, por exemplo, pagou parte de recente manifestação do Sindicato dos Jornalistas em prol de Dilma.
Nisto talvez resida uma crítica ao sindicalismo de forma geral. Mas antes do PT, havia o mesmo problema com a relação entre os sindicatos e o PCB, o “Partidão”. Há razões históricas para essa confusão de sindicato com partido, e talvez a explicação esteja na amarra getulista dos sindicatos ao Estado. E há mesmo um problema de partidarização dos sindicatos, como também do movimento estudantil ou outros. Isto, porém, não deve ser tomado como pretexto para invalidar os sindicatos enquanto tais. Até porque, em grande parte, esses sindicatos acabaram se tornando espaços restritos de interesses partidários também porque os que se opunham a isso, em lugar de lutar para mudar a situação, resolveram se retirar deles e da participação direta. Legalmente, os sindicatos são representantes da classe profissional a que se referem. Se isto não é o que acontece na prática, a melhor maneira de mudar a situação é participando de suas decisões, não se excluindo delas.

E contra o quê se manifestava o sindicato? Contra o golpismo midiático! É muita ironia.
Posso contar alguns casos de jornalistas que, trabalhando em veículos da chamada “grande imprensa”, foram desautorizados e “censurados” internamente por escreverem matérias que iam contra o interesse dos veículos. Em casos como a questão das cotas, ou dos livros didáticos (para não falar das eleições), alguns jornais e revistas simplesmente abriram mão de um debate às claras, amplo e com divergências de opiniões. Em lugar disso, passaram a fazer verdadeira campanha em defesa de uma posição que, em momento algum, abriu qualquer espaço para o contraditório. Mesmo que o termo “golpista” possa parecer exagerado, há uma reivindicação legítima em relação a uma parcialidade desmedida – e, pior, disfarçada de “isenção” – por parte da mídia, ou dos principais veículos. E essa não é apenas uma avaliação de setores apoiadores do governo. Até mesmo alguns ombudsmen dos jornais observaram isso (antes, é claro, de o cargo ter sido extinto por vários desses veículos)...

O fato é que a censura corre solta no governo Lula, com tendência a piorar! O Grupo Estado, que nos tempos da ditadura publicava versos de Camões ou receitas culinárias para assinalar os trechos censurados, hoje sofre a censura imposta pelo clã Sarney, cujos desmandos impingem ao seu Estado o pior IDH do País. Mas Sarney apoia Lula e coincidentemente a censura não acaba. O próprio Lula tentou extraditar o jornalista Larry Rohter porque não gostou de ser mostrado como alcoólatra por este. A censura aos meios de comunicação é uma ideia fixa do atual governo.
Não consigo entender como se pode falar de censura quando há revistas como Veja, Época, ou jornais como a Folha, o Estadão, o Globo, em que tantos articulistas, editorialistas, e até matérias regulares (que alguns poderiam supor que não são os espaços opinativos desses veículos) podem livremente criticar, desqualificar e até ridicularizar abertamente o governo, o partido governista, e até (ou principalmente) o presidente. E até onde eu sei o governo nunca designou uma pessoa ou um órgão para avaliar previamente o que é publicado para autorizar ou não. Para mim, é isso o que caracteriza censura. Do outro lado, tenho visto e ouvido frequentemente de pessoas que trabalham nesses jornais e revistas, que qualquer opinião minimamente divergente daquela que o editor ou o dono do veículo defende é previamente descartada, ou imediatamente punida. Maria Rita Kehl que o diga. O caso da “censura” ao Estadão é uma situação desagradável, mas que formalmente ocorreu dentro das regras de um Estado de direito. A “censura” é o resultado de uma decisão judicial, que pode ser revertida, e não da intervenção direta na redação, como foi no regime militar. Da parte do Estadão, não reconhecer essa diferença fundamental é nada menos que desonesto. O caso do jornalista americano é, de fato, vergonhoso, mas não consigo ver neste caso um exemplo de uma tendência geral, ou de uma “idéia fixa”. Essa “ideia fixa” é geralmente relacionada ao projeto do Conselho Nacional de Jornalismo, e a crítica de que se trata de uma tentativa de “controle” partiu tanto da direita quanto da esquerda. Por isso, merece ser discutida com cuidado. Eu chamo a atenção para o fato de que se trata de um projeto de lei, de uma proposta de regulamentação da constituição... não se pretendeu criar um instrumento como esse por meio de decreto ou de “ato institucional”, por exemplo. Então, nos debates, o direito ao contraditório dos que discordam está assegurada – tanto é assim que o projeto não foi aprovado! Condena-se o governo por propor a discussão, e por ter uma posição a respeito, mas não há como ver autoritarismo em nenhum dos procedimentos que, até agora, orientaram a discussão deste projeto. Se é bom ou ruim, é uma discussão que, infelizmente, aqui não tenho espaço para debater. Mas o que se tem feito é radicalizar o debate para “liberdade absoluta” versus “controle total”, enquanto o que eu acho é que pode e deve haver um meio termo.
Ah, sim, um comentário sobre o clã Sarney. Não morro de orgulho de ver que ele apoia o governo Lula, mas também não me iludo em achar que exista uma ampla convergência programática e ideológica entre ambos – o apoio é circunstancial. Tem muito a ver com o arranjo partidário que governa atualmente, no qual o PMDB é também governo. Mas é um apoio que vai só “até a página dez”... imaginem o que Sarney faria, dono que é de tantos veículos de comunicação no Maranhão, se a discussão do CNJ ou a regulamentação da Constituição a respeito dos meios de comunicação (e a limitação à oligopolização da mídia, por exemplo) avançassem. Alguém duvida da ferocidade com que ele assumiria a oposição ao PT? Na verdade, o lamentável é que “coronéis” como Sarney e tantos outros, tenham permanecido no poder por tantos anos, atravessando governos e governos e se mantido quase intocáveis. Pois Sarney também não apoiou o governo FHC? Isso diz muito mais sobre o fracasso das “forças progressivas” no país em constituir uma sociedade mais democrática, e muito também sobre o êxito dessas “oligarquias” em se perpetuarem no poder em suas regiões, a despeito de qualquer mudança governamental. Como o “Leopardo” de Lampedusa, a nossa elite sabe se dividir e estar sempre dos “dois lados” para que sempre continue ganhando, e sendo capaz de sempre de seguir a regra do “às vezes é preciso mudar para que tudo continue igual”. Ter permitido que essa situação tenha se mantido é um erro ou uma limitação do governo petista, por certo, mas também o foi do governo FHC, e não tenho motivos para acreditar que também não vá ser no caso de um governo Serra – já que tantos desses oligarcas integram o DEM que o apoia.

O aparelhamento do Estado tornou-se uma realidade, apoderando-se dos cargos públicos e se achando no direito de distribuí-los aos companheiros, não importando se têm competência ou não.
Outra questão que pode ser analisada de forma mais cuidadosa. Primeiro, é muito comum que um partido, ao assumir um governo, queira colocar em cargos de confiança pessoas alinhadas com suas próprias propostas e concepções. Até aqui, acho que ninguém há de ver problemas, e assim é feito em qualquer governo. Segundo, talvez exista uma tentativa de equivale essa política a um projeto “leninista” ou “stalinista” de tomada do Estado. O alerta é válido e há que prestar atenção a isso, mas não há elementos para algo além disso. Terceiro, quando se coloca o “não importando se têm competência ou não”, também se abstém de avaliar de fato a competência de quem foi lá “colocado”. Pelo simples fato de estar no governo em “cargo de confiança” já desqualifica quem lá está. No entanto, nas diversas áreas que acompanho profissionalmente, o que vejo é estão lá algumas das pessoas mais credenciadas para as políticas em cada setor – exemplos não faltam: no Ministério das Cidades, do Meio Ambiente... Ao mesmo tempo, muito se tem investido na expansão do funcionalismo público por meio de... concursos públicos! O que pode ser mais alinhado com a idéia de “competência” do que alguém ser aprovado para órgãos públicos após passar em concurso? Mais uma vez, falar de “aparelhamento” é uma generalização descuidada.

Competência, afinal, é um conceito demonizado, porque implica direitos e deveres. Uma só coisa interessa: direitos. Deveres dão trabalho!
Acho que muito diferente de demonizado, o conceito é problematizado. “Competência”, em primeiro lugar, não é um conceito neutro, como parece. Existem pessoas igualmente qualificadas que defendem concepções de políticas públicas muito distintas. Dá para dizer que alguma delas é mais competente? Por outro lado, competência não implica exatamente “direitos e deveres”, mas responsabilidade. Quando se diz que algo “compete” a alguém, significa que esta pessoa se responsabiliza por aquilo, e não vejo neste governo uma atitude generalizada de fugir à responsabilidade, como é sugerido. Mas há uma ideia de fundo nesta crítica, que associa a atividade política ao descompromisso com o “trabalho”. Isto, infelizmente, é uma imagem muito difundida: políticos, em geral, “não trabalham”. Sindicalistas, lideranças sociais e afins “não trabalham”. Mas duvido que qualquer um desses não saiba o que são “direitos” e “deveres” em sua atividade. Pode haver, mas não acho que este seja algo que possa ser discutido em termos genéricos, e quando se atribui uma qualidade dessas a um governo todo, ou a um partido ou a uma corrente política, essa generalização ganha ares de preconceito...

Surpreende ver como até Chico Buarque caiu na demagogia fácil ao afirmar que “este governo não fala fino diante de Washington, nem fala grosso diante da Bolívia e do Paraguai”. Isso é discurso de porta de fábrica.
É muito mais do que isso. Demagogia é um termo pejorativo, depreciativo, para uma política externa marcante. Em momentos cruciais, quando tantos exigiam do governo que “falasse grosso” com a Bolívia (quando esta nacionalizou a produção de gás no país, o que era uma antiga demanda dos movimentos sociais que, com Evo Morales, chegaram ao governo) ou quando o Paraguai resolveu reivindicar maiores direitos em relação à usina de Itaipu. Oposicionistas exaltados só faltavam exigir do governo que declarasse guerra a esses países, e o governo teve a sensatez de propor negociação. Com relação a Washington, o posicionamento é mais sutil, pois não houve afrontas diretas (como Cuba e Venezuela, sempre associados a Lula, adotaram), mas também não há subserviência. Há algo reconhecido muito frequentemente como “demagogia”, que é o fato de Lula insistir em se pronunciar em português. Acho isso muito positivo, porque este é o idioma do país que ele representa. Aos olhos de alguns, isso está relacionado à sua “ignorância” (afinal, desde Rui Barbosa, acostumamo-nos a ter orgulho de nossos representantes serem doutos nos idiomas da “civilização” e dos países “avançados”). Aos olhos do resto do mundo, e quem está lá fora comprova isso, o que aparece é apenas uma disposição de um presidente de se exprimir por sua língua nativa e se valer dos sempre presentes intérpretes e tradutores para ser entendido pelo interlocutor. Com isso, Lula torna fato um diálogo entre iguais, entre nações que, formalmente, são equivalentes no direito internacional. Que há uma assimetria de poder, ninguém nega, mas essa assimetria simplesmente não é naturalizada.

A arrogância de Lula vem de um sentimento de inferioridade que ele nunca superou e que inconscientemente projeta nos outros, chamados vagamente de “eles”. Só não consegue esconder o incômodo que lhe causa ouvir falar em FHC. Chega a saltar da cadeira, nessa hora. Valha-nos Freud!
Atitudes são quase sempre carregadas de múltiplos significados, e o “sentimento de inferioridade” é talvez um deles, não o único nem necessariamente o principal. O perigo de uma “psicologização” tal  é que, de um lado, se impute ao Lula uma tendência inerente, imutável (“é um traço de caráter”), e de outro lado, descontextualiza e retira da história pessoal de um indivíduo, o Lula que não é apenas o ocupante de um cargo mas alguém que tem uma trajetória. Se há mesmo um sentimento de inferioridade, ela não deve ser usada para desautorizar nem para desculpar uma pessoa e seus atos. Não acho que se deva usar esse sentimento para caracterizá-lo como um “coitado” nem como um “mau-caráter”. Por outro lado, como comentei antes, existe a arrogância que vem de um sentimento de inferioridade e uma arrogância que vem de uma prepotência esnobe. Entre uma e outra, fico com a primeira. O sentimento de inferioridade, por outro lado, tem um componente de “classe” (por odiosa que a palavra pareça para alguns). A história de Lula ainda é a do migrante pobre, nordestino. Que isto tenha sido usado como arma de marketing, é uma coisa, mas que há um substrato real nessa imagem, também há dúvida. Lula tem sido sempre acusado de se valer dessa “imagem” para se justificar em tudo e “não trabalhar”, mas essa acusação sempre desconsidera o trabalho que foi organizar metalúrgicos, liderar uma greve contra o regime militar, fundar um partido de “esquerda” e fazê-lo o maior partido de “esquerda” do mundo. Essas conquistas são frequentemente menosprezadas pelo simples fato de não corresponderem a um ideário que se acredita ser mais adequado ou mais edificante como exemplo de realização individual. Não se encaixa no “self-made man”. Mas quanto a humanidade deve a pessoas que, além ou até em lugar de projetos individuais de vida, trabalhou em nome de coletividades! Que em determinado momento o projeto coletivo tenha dado lugar a um projeto pessoal, é questão a se discutir (eu não concordo), mas que há uma história maior do que apenas isso, certamente há. Sobre FHC: é nítido também o desconforto que ele demonstra ao ser comparado com Lula. Supondo-se que não há, neste caso, um “sentimento de inferioridade”, será que se pode falar em “inveja”? Afinal, e já que é para falar de psicologia, vaidoso como ele é, não deve ser nada fácil ser colocado em pé de igualdade (ou até em desvantagem) na comparação com Lula.

Das bobagens que li ultimamente, a maior delas dizia “Se Dilma ganhar, haverá golpe”. Talvez fosse um dilmista aterrorizado.
Conheço o autor da frase. Embora ache que não dá para afirmar algo assim com tanta convicção, também não acho que seja meramente uma bobagem. O que o “dilmista aterrorizado” (na verdade, está muito longe disso) quer alertar é que há pessoas por trás da oposição a Dilma, a Lula, ao PT, que não medem as conseqüências na defesa de seus interesses. Que não sejam todos, ainda assim a situação de polarização que esta eleição demonstrou é preocupante. Principalmente pelo grau de agressividade que os dois lados têm utilizado para desqualificar um ao outro. Embora eu ache que a agressão que Lula e Dilma têm sofrido é imensamente maior. “Cachaceiro”, “analfabeto”, e agora “assassina”, “terrorista”. Quem lê as páginas de debates pela internet deve se assustar com declarações antipetistas de um nível de intolerância e preconceito que beiram, ou até mergulham fundo, num fascismo de botar medo. E essa atitude também me aterroriza.

Se Serra ou Dilma ganhar, não importa, o Brasil continuará crescendo. No segundo caso, porém, pelo que mostram os fatos atuais, progressivamente irão sendo calados os meios de comunicação. Haverá então uma única voz e verdade: a versão oficial.
Mais uma vez, não vejo “fatos atuais” que comprovem que qualquer meio de comunicação esteja ou vá ser calado. E, de qualquer forma, uma coisa que está clara é que cada vez mais o debate se desloca desses meios de comunicação unidirecionais (jornais, revistas, TV) para estes, como a internet e as redes sociais, que são essencialmente colaborativas, de ida e volta. A produção de conteúdos está cada vez mais descentralizada, e isso aponta para uma sociedade cada vez mais – e não menos – democrática, onde a “voz oficial” é, cada vez mais apenas mais uma voz.

Felizmente, se Serra ou Dilma ganhar, não importa, sempre haverá gente lutando por um país melhor e mais justo, sempre haverá gente trabalhando – e muito! – pelo bem da coletividade. Isso independe da vontade pessoal de qualquer um dos dois.
Concordo, e acrescento: não creio que nenhum dos dois candidatos, ao menos pessoalmente, deseje algo diferente disso.

É bom lembrar que o ganhador levará apenas pouco mais da metade dos votos.
O que, mais uma vez, garante que não será possível haver uma única voz e verdade.

16 de outubro de 2010

Carta a Soninha

Durante esta semana vários de meus conhecidos, amigos e parentes repassaram e recomendaram a leitura de um depoimento que você escreveu explicando a decisão de apoiar o candidato à presidência José Serra. Bom, na verdade, é muito mais do que apoiar um candidato, já que você se tornou nada menos do que coordenadora em sua campanha. Procurei ler seu texto, em busca de alguma explicação para o que, para mim, ainda não fazia sentido. Mas me decepcionei profundamente com seu depoimento.
Em primeiro lugar, não traz novidade nenhuma: quem lê seu texto apenas tem novos “argumentos” (e eu escrevo entre aspas porque não vi nele uma argumentação de fato) para reiterar uma opinião genérica e superficial do que é a política, em geral, e o PT, em particular. O seu depoimento nada faz além de confirmar aquela imagem que se tem do “jogo político” como algo essencialmente ruim e antiético. Em nada remete a alguém que diz ter como sonho “resgatar a crença das pessoas na política”. Porque tudo o que você elogia em Serra é aquilo em que ele parece se afastar da política. Mas isso faz parte da imagem que ele tenta vender, e você ajuda a disseminar: a de que Serra está “além” ou “acima” dos interesses partidários, das disputas políticas. Será mesmo? Quando professores entraram em greve, qual foi a disposição dele para dialogar de forma “republicana”? Não foi isso que eu vi: em todas as entrevistas dele só o que eu via era a tentativa de desqualificar qualquer movimento como “político”. Eu sei, e você também sabe muito bem, que uma declaração como essa também é profundamente política. Como é profundamente política a indisposição para negociar ou dialogar. Bom, eu falo isso como quem assistiu a situação “de fora”, mas não acho que por isso minha opinião - que você deverá dizer que é “apenas uma versão” - deva ser desconsiderada. Afinal, a maior parte da população vê essas coisas como eu - “de fora”. Resumindo, então, o primeiro ponto: você não ajuda a enriquecer o debate criando essa contraposição entre um PT “político” e um Serra “desinteressado”.
Mas a “autoridade” do seu testemunho estaria no fato justamente de ter visto o que ninguém viu, de ter estado “lá dentro”. E é aí, onde eu tinha o maior interesse em conhecer “fatos” e “informações”, o que você apresenta são afirmações vagas, genéricas. Fala de “projetos” da oposição que o Serra apoiou: que projetos foram? Ou de projetos da base aliada que ele vetou? De novo, quais foram? Fala dos “petistas”, e não dá sequer a chance de nenhum deles se defender. O que você faz é uma acusação grave, mas faltam - justamente - informações e dados que ajudem o leitor a entender a circunstância toda.
O caráter “republicano” é exemplificado por você por ter vetado projetos que ele considerava contrários aos interesses públicos, sancionado outros positivos, mesmos que originais da oposição. Mas tudo isso segundo uma concepção que ele tem do que é o bem comum, concorda? Permita-me um exemplo: ele foi um dos grandes promotores da política de arrasa-quarteirão que foi o famigerado projeto Nova Luz. Deste projeto eu poderia falar longamente, como urbanista, mas vou resumir no seguinte: a maioria absoluta dos urbanistas na época foi contrária ao projeto como se apresentou, e não houve grande disposição para diálogo - alguns dos críticos do projeto, como o padre Júlio Lancellotti, foram sistematicamente difamados e desqualificados. O que é o projeto hoje? Um fracasso. Será que não teria sido muito mais produtivo ter ouvido outras pessoas? Além de você, quem mais ele ouviu? Sobre política urbana, por exemplo, quem mais além de Andrea Matarazzo, que se mostrou uma pessoa absolutamente indisposta a negociar e dialogar “republicanamente”, como você tanto preza?
Você enumera várias “realizações” de Serra, mas isto qualquer programa político é capaz de fazer. PT ou PSDB, PMDB ou DEM, todo partido que já foi governo terá sua lista de obras, de projetos iniciados, concluídos... Porque as realizações do Serra são necessariamente melhores? Você coloca como grande feito ter “mantido” os telecentros e os CEUs, mas para mim o mais importante é quem os concebeu. E me desculpe discordar, mas não acho que a manutenção dos CEUs tenha sido mérito apenas de seu convencimento. Houve ampla mobilização e reivindicação para que esses equipamentos não fossem desmantelados e sua concepção fosse preservada.
Enfim, há muito o que poderíamos discutir - políticas públicas, projetos para a cidade, concepção do papel do Estado. Eu acho importantes todas essas discussões, mas não é o que seu texto propõe. Ficamos apenas com uma impressão sua sobre o “caráter” individual de Serra (olhe só: o PSDB ou o DEM não são mencionados uma única vez por você!), em contraposição ao “jogo sujo” de um PT genérico. Bastante injusto, não? Seu texto acaba servindo muito bem a quem já se coloca como “anti-PT”, como tantos (e você, como ex-petista, sabe bem de que tipo de agressividade uma postura como essa pode ser). Mas só isso: pelo seu depoimento, não encontro nada que me ajude a julgar o projeto peessedebista. E o que eu testemunhei não me agradou, honestamente falando. Tudo bem, é apenas minha “opinião”, mas o que li do seu texto também não passa de sua opinião.
Vou terminar dizendo que os motivos que a levaram a deixar o PT são talvez os mesmos que sempre me deixaram em dúvida quanto a participar ativamente da vida partidária, ou seja: a “liberdade” de votar e se expressar exclusivamente conforme minhas convicções pessoais. Acredito que eu, fosse no PT ou em qualquer outro partido, teria problemas em seguir certas orientações, diversas de minhas próprias concepções. Então optei por me manter de fora, e preservar a liberdade de criticar o que achasse necessário. Se você encontrou um partido cujas posições coincidem inteiramente com as suas, ótimo para você. Mas não é honesto de sua parte dizer que somente o PT ou os “petistas” (que nem sei quais exatamente são) fazem esse tipo de “jogo”.
Quando você centra toda a argumentação numa questão de “caráter”, esvazia toda discussão - necessária - sobre que sociedade queremos. E, ao contrário do que tenta nos convencer, não existe unanimidade sobre isso, então não dá para debater na base do “bem comum” versus “interesses particulares”, ou da “postura republicana” versus “guerra suja”. É lamentável que você não tenha feito nada para ir além dessa dicotomia. Quando acusa os petistas de tentarem criar uma imagem de Serra como o Satanás, não está fazendo outra coisa além de também pintar o PT com essas mesmas tintas. Por que, então, uma coisa é tão condenável e a outra tão natural? Como pode querer que eu acredite que seu testemunho é imparcial quando você, do mesmo jeito que os petistas que critica, não se mostra capaz de reconhecer o que seus adversários propuseram ou fizeram de bom? E se nem você é capaz disso, o que me faria acreditar que seu candidato, seu partido, sua coligação, seriam capazes? Se você tem respostas para isso, porque insistiu numa argumentação reducionista, caricata, sentimental? Vindo de outra pessoa, eu teria imaginado que era apenas um texto raso, superficial e inocente de alguém que não consegue ir além da pobreza do debate político que temos testemunhado nestas eleições. Sendo você, jornalista e comunicadora, política e “uma das principais lideranças políticas” de seu partido (como ele mesmo se refere a você na página do partido) não consigo imaginar que não tenha escrito um texto com palavras muito cuidadosamente escolhidas e um tom meticulosamente estudado, para que os “antipetistas” pelo Brasil afora tenham supostamente “argumentos” para desqualificar qualquer projeto ou proposta do atual governo. Com uma suposta autoridade, conferida por quem esteve “do lado de lá” e, vendo os “horrores” daquele monstro que é o PT segundo seus olhos, decidiu se unir ao lado oposto.
Seu depoimento não é isento, não é objetivo, sequer equilibrado. Por isso, não é inocente. E você sabe disso.

15 de setembro de 2010

"Pagodeiro" no Senado

Nas últimas semanas, uma amiga colocou no Facebook uma questão sobre os candidatos em quem votaríamos para o legislativo. Outra escreveu em seu blog um breve artigo explicitando sua opção para a presidência. E aqui estou eu, pensando no assunto (política/eleições) de novo.
Acontece que hoje, durante o dia, me ocorreu um pensamento que talvez tenha decidido minha escolha para o segundo senador em quem votar. Lembrando: nesta eleição, votaremos para dois candidatos ao Senado. Embora o título deste post já explicite em quem eu pensei hoje, quero pedir ao leitor que segure o escárnio ou a indignação por mais alguns instantes, para que eu possa apresentar alguns argumentos, e espero que ao menos eles estimulem alguma reflexão. Não estou aqui fazendo campanha, não tenho sequer a intenção de convencer ninguém. Mas fomentar um debate que precisa sair do esquema "torcida de futebol" e ganhar alguma seriedade.
Então vamos lá: resolvi votar em Netinho. Pensando que isso é inteiramente coerente com o que venho pesquisando e defendendo intelectualmente e politicamente. Um primeiro argumento, raso, seria dizer que estudo os sambistas e por isso o apoio ao Netinho, ex-integrante de um grupo de samba e ainda tachado de "pagodeiro" (com toda a carga pejorativa que o termo carrega). Se assim fosse, eu estaria admitindo que tenho com os sambistas uma relação de mera curiosidade, que os encaro de uma maneira "folclórica", como algo inteiramente alheio à minha realidade e, mais do que isso, meramente "exótica", divertida, excêntrica.
Vai daí um primeiro problema: um dos argumentos de minha tese é exatamente que a manifestação por meio do samba pode ser, com bastante proveito, entendida também em termos políticos. Desde que, para isso, ampliemos o significado que damos a "político", além dos jogos partidários e das disputas eleitorais.
Netinho era absolutamente político quando cantava "essa gente já sofre demais/ são tratados como animais / e só querem um pouco de paz / e precisam ouvir Racionais". Também era político, à sua maneira, quando fazia seu programa televisivo (não preciso concordar com o que o programa realizava para considerar "político" em certo sentido). Mas é absolutamente significativo que ele tenha passado à ação política formal, convencional até.
Para mim, sua candidatura parece algo novo, porque Netinho não se vale simplesmente de sua popularidade como cantor, mas de sua sempre enfatizada origem e história de vida. E seu discurso não é o de um "humilde" que venceu na vida e ponto. Este seria o argumento perfeito para ele se lançar por qualquer outro partido oligárquico-liberal, já que estaria apenas repetindo o mantra do "self made man" burguês. Sua vivência não lhe permite isso, e uma rápida olhada em seu site confirma isso. Ele tem consciência de sua condição de oriundo da periferia metropolitana, de uma realidade cruel e implacável com a maioria de seus residentes. Sabe que é uma exceção e não se conforma com isso. E, como sua campanha já destaca, é um candidato negro ao senado por São Paulo. Fato inédito, e isso não é pouca coisa.
Sua candidatura tem, guardadas as proporções, o significado da de Lula, no sentido de que é uma figura oriunda de uma classe que raramente tem voz ativa nessa nossa vida política brasileira. Uma prova disso? A permanente desqualificação que lhe é dirigida. Os jornais que se referem a ele (um vereador de São Paulo) como "pagodeiro", entre outras tentativas de lhe retratar como uma figura risível, ridícula e desprezível. Mas ele está lá. Como a própria periferia, ele se faz presente e se impõe mesmo contra a imagem que tenta associar sua figura sorridente à de um bobo. Mas não acho que ele seja bobo: vindo de onde vem, é antes de tudo um sobrevivente.
Nossa elite, e na cola desta a nossa classe média, tem demonstrado uma incrível incapacidade de reconhecer um papel ativo e consciente aos oriundos das "classes populares". Continua achando que os pobres são inconseqüentes, apáticos, passivos. Acostumada a ver os "de baixo" como figuras infantilizadas (ou até imbecilizadas), incapazes de decidir por si próprias e de se representar. É contra essas imagens todas, ainda tão presentes e arraigadas no senso comum, que resolvi dar uma chance a essa parcela da população de alcançar algo que, possivelmente há alguns anos, seria impensável: um senador negro originário das camadas mais pobres da população urbana brasileira. Quantas vezes tivemos senadores com essas características?
Será muito bom ter um senador que declara que "Eu conheço a dificuldade das pessoas e não é através de estatística ou notícia de jornal. Eu vivi isso". Será bom que o Senado ouça mensagens desse tipo, e saber que não mais poderá dizer o que bem entender de uma população que pouco conhece.
E ao declarar a intenção de votar nele, não estou supondo que ele acertará (segundo meu ponto de vista) em tudo, que não poderá errar. Depositarei nele um voto, sim, e não as esperanças de redenção. Errando ou acertando, é fundamental que a população que ele pretende representar se sinta capaz de alcançar as instâncias políticas em que sua voz necessariamente se fará ouvir. Mesmo com eventuais discordâncias em relação a propostas ou ações que ele desenvolva, quero apoiar uma candidatura de alguém que, vindo "de baixo" (e eu tenho estudado com afinco as ações de pessoas como ele), faça do "povão" protagonista de fato da política nacional. Errando ou acertando: do mesmo jeito que eu sempre acreditei que a democracia só se aprende praticando, acho também que só exercendo a política o povo poderá adquirir a tão falada "consciência política". Se é que já não a tem.