13 de julho de 2014

Futebol e música em tempo de crises

A campanha da seleção brasileira nesta Copa do Mundo trouxe à baila uma série de comentários sobre uma "crise" do futebol brasileiro, chamamentos à sua reforma (ou revolução, conforme prefiram alguns), necessidade de se "reinventar" ou se "redescobrir". A sensação geral que perpassa todos esses comentários é a de que algo se perdeu e precisa ser resgatado. Um traço da "personalidade" brasileira, de sua identidade. Para uns, o erro esteve em abandonar o futebol que era o "típico" futebol brasileiro: o toque, o drible, a ginga e o... improviso. Outros, na direção contrária, apontam como erro a recusa do futebol brasileiro em se "modernizar", segundo os parâmetros do futebol... quem adivinha?... europeu (é claro). A esses últimos não posso deixar de lembrar que foi justamente o clamor pela "modernização" (após quatro copas de "fracassos" entre 1970 e 1986, quando tivemos excelentes times mas não conseguimos "ganhar a Copa") que nos levou à famigerada "era Dunga" de Sebastião Lazzaroni... É toda uma geração de atletas, treinadores, cartolas e jornalistas que vem dizendo, há décadas, que o futebol brasileiro precisa se profissionalizar, modernizar. Que o jogador precisa, antes de tudo, de condicionamento físico e tático, etc etc etc.
Curiosamente, a mesma sensação de perda ou descaracterização tem rondado muito do que se fala sobre a nossa música. Assim como no futebol, onde lamentamos a ausência de Pelés, Garrinchas, Zicos ou quetais, também suspiramos ante a ausência atual de Jobins, Chicos, Caetanos... A impressão de "decadência" ou (para usar um termo ainda mais forte) "degeneração" da nossa música é provada pela preponderância dos pagodes mela-cueca, do "sertanejo universitário" ou o que quer que seja. Aqui também a discussão se dá em torno da questão da "identidade nacional": estaríamos abandonando nossas "raízes" em favor de uma sonoridade "globalizada", ou a realidade é que a modernização é um processo irrefreável?
A única resposta que me ocorre, num caso como no outro, é a que tenho dado repetidamente nos últimos tempos: não generalizemos. Para entender o que ocorre com o futebol e com a música no Brasil, é preciso ser capaz, primeiramente, de circunscrever a questão, para depois olhar para o lado de fora. Estamos falando de um futebol e de uma música que se tornaram imensas e poderosas atividades econômicas. São parte de uma indústria de entretenimento ou de esportes altamente profissionalizados, globalizados (e, quando digo isso, estou dizendo também que integram um circuito altamente financeirizado, especulativo e competitivo segundo os ditames neoliberais que regem essa tal "globalização"). São atividades em que o fim não é o esporte ou a arte em si, mas o lucro que geram. Mas, nem de longe, essa música e esse futebol correspondem à totalidade do que se faz no Brasil.
Que se diga então que as atividades econômicas baseadas na cultura ou no esporte brasileiros precisariam se reformular e transformar. Perguntemos: para quê, e para quem? Ganhamos duas Copas do Mundo desde Lazzaroni até hoje (ou seja, em plena globalização), e temos jogadores frequentemente listados entre os mais valiosos do mundo, ou entre os maiores jogadores do mundo (talvez, circunstancialmente, estejamos numa fase de vacas magras... mas já passamos por isso antes). Do mesmo jeito, artistas brasileiros têm participado ativamente de circuitos internacionalizados da música. O negócio vai bem, sim, obrigado. Quem lucra com ele continua lucrando.
Algo me diz, porém, que o futebol e a música que gostaríamos mesmo de reconhecer como nossa está longe das "arenas" ou dos programas de televisão. Posso dizer pela música, que conheço um pouco melhor: exatamente agora, há uma geração absolutamente fantástica de compositores, intérpretes, instrumentistas, que não devem nada às gerações anteriores em termos de inventividade, exploração, domínio dos repertórios tradicionais e capacidade de reelaboração dessa mesma tradição. Que talvez esperem apenas o momento de sua "descoberta", se é que esperam. Na verdade, para muitos deles, isso não faz diferença: integrar o circuito da "indústria musical" é visto muitas vezes como limitante - ainda que, talvez, muitos desejassem poder viver de sua arte.
No futebol, onde parece se generalizar a ideia de que tudo não passa de um grande negócio (com as constantes suspeitas de manipulação e ingerências de toda espécie), nada me impede de imaginar que exista ainda, em outros campos, talvez nas ruas, e longe das "escolinhas de futebol", da visão dos "olheiros" e do alcance dos "empresários". Um futebol que, como a música, é primeiramente praticado pelo prazer de jogar. Ali talvez encontremos ainda os nossos talentos, o improviso, o jogo coletivo, o toque de bola. Ali também poderemos encontrar quem pouco se importe com a "profissionalização" e não faça nenhuma questão de ser um novo astro. Embora, também, talvez haja quem desejasse poder viver do que sabe fazer de melhor.
Não é preciso medir o sucesso da nossa música ou do nosso futebol pelo título na Copa do Mundo ou pelo vencedor de "Ídolos". E, principalmente, não é preciso medir nosso valor como "povo" ou "nação" usando réguas que não são nossas. Não há porque duvidar que voltemos a ser campeões do mundo, não há porque achar que nunca mais teremos outros Chicos e Tons. Mas estaremos simplesmente errando o foco se quisermos orientar nossas artes maiores para a obtenção de "resultados", segundo uma lógica estritamente empresarial. Vamos brincar de novo.

11 de julho de 2014

Da seleção ao Brasil Genérico


Mal acabou a partida em que a seleção brasileira de futebol foi vencida pela alemã pelo inacreditável placar de 7 x 1, já começaram a surgir os textos que, junto com a demanda justa por uma grande transformação do futebol brasileiro (mais organização, mais profissionalismo, mais preparação e planejamento, etc.) trouxe também uma série de interpretações que tentavam justificar o fracasso futebolístico a partir de uma tentativa de tornar a seleção um emblema ou síntese de toda a nação ou de seu povo.
Há uma longa tradição de ensaios interpretativos da nação, na qual às vezes elementos supostamente simples (como o carnaval) são tomados como um ponto de interseção de múltiplos traços do "caráter nacional". Geralmente, ensaios filosóficos, antropológicos, sociológicos, que procuram extrair de um indício (no caso, a partida de futebol) uma possível confluência de vários outros processos ou caracteres que poderiam ser elucidados a partir desse evento sintético. Evidentemente, poucos deles (se é que algum) têm o mesmo sucesso, e sequer a mesma perspicácia ou profundidade de um Sérgio Buarque de Hollanda. Na maioria esmagadora dos casos, recorre-se a concepções já bastante desgastadas da "identidade nacional" ou a estereótipos, preconceitos, generalizações rasas. Muito eficientes pra alimentar uma boa discussão de boteco, mas que pouco acrescentaria a um debate mais sério sobre o país.
Isso porque, basicamente, os termos da discussão se amparam em noções genéricas tão vagas quanto discutíveis: para ficar em um só exemplo, afinal quem é "o" brasileiro? Quem pode afirmar que "o brasileiro" não é racional, não planeja, é "malandro", trata tudo na base do "improviso"? Pergunto ao leitor: em que medida você mesmo se identifica com essa descrição? Com muito boa (ou má) vontade, talvez você admita um traço de malandragem aqui, um pouco de improviso acolá, mas tenho certeza de que, no geral, sua vida é pautada por decisões, e várias delas são profundamente refletidas.
O problema é tão velho quanto os estereótipos que alimentam esse tipo de discussão: o "brasileiro" ou o "Brasil", genericamente falando, é uma abstração de quem o vê de cima ou de fora. Esses raramente se dão ao trabalho de compreender situações e contextos reais, específicos em seu tempo e espaço. E raramente enxergam na "malandragem" uma resposta, dentre outras possíveis, a uma opressão violentíssima e historicamente constante contra a população. Ou a suposta "falta de planejamento" a um descaso com o interesse público da parte de quem, seja como for, sairá sempre ganhando. Essas generalizações, quase invariavelmente, assumem um tom depreciativo, e essa depreciação incide invariavelmente sobre aqueles com os quais o narrador se recusa a se identificar. Estão, portanto, sempre abaixo. Curiosamente, esses são os textos que, supostamente, estariam fazendo o grande favor de "politizar" uma atividade que, se tratada nos estritos limites de sua própria realização (o futebol), conduziriam invariavelmente à alienação.
Eu, thompsoniano assumido, recuso essas generalizações idealistas e opto sempre pelo caminho (ainda que mais trabalhoso e menos confortante) de examinar o "povo brasileiro" em casos concretos, em situações reais, em meio a conflitos e tensões, com recursos limitados e pouca "visão do todo" (que, na realidade, nenhum sujeito histórico realmente tem), com possibilidades e escolhas limitadas, e entender em meio a isso tudo que respostas são dadas aos problemas e por quê. É fato que não consigo, na maioria das vezes, depreender uma "regra" que me permita julgar uma nação e um povo como se fosse uma unidade indistinta e uniforme. Mas consigo preservar alguma prudência para observar quem está falando, de que posição (e a que distância), sobre quem, e julgar se desejo me alinhar a ele - e, quase sempre, prefiro não.
Ganho, ainda, outro benefício: rio e choro junto com todos os outros, sem julgá-los. E assisto ao futebol me divertindo ou sofrendo com eles (como foi neste jogo Brasil x Alemanha) sem arrogância nem pedantismo.

6 de abril de 2014

Classe média, os impostos e o medo do poço sem fundo

Tem sido quase lugar comum criticar as atitudes e valores da classe média brasileira - individualismo, conservadorismo, etc. Sempre me lembro, nessas horas, de um ensinamento da minha orientadora do doutorado, quando ainda era um estudante em iniciação científica: sociologicamente não há "classe média" - o mais correto seria usar a expressão no plural: "classes médias". Por que isso faz diferença? Porque talvez o maior erro dessas críticas seja o de colocar inúmeros grupos em uma categoria única, desconsiderando suas diferenças, seus conflitos, até mesmo suas contradições e incoerências. Há enormes diferenças entre o executivo e o professor da rede pública, entre o jornalista e o médico, entre o arquiteto e o mestre de obras. E diferenças também no interior desses grupos (e, com essas diferenças, não quero dizer que "cada um é cada um", mas sim que coletivamente cada um deles é também heterogêneo, com diferentes orientações políticas, culturais, etc, antes ainda das diferenças da história pessoal de cada integrante).

Uma classe?

Essa denominação no singular estaria muito mais ligada a um método de estratificação socioeconômica, baseada no critério de renda (ganho monetário), mas será possível estabelecer tão diretamente assim uma correlação entre o que se ganha e aquilo em que se acredita, ou em como se age? Pensei nisso mais uma vez recentemente, ao me deparar com minha declaração anual de renda. Eu, que até ano passado fazia jus a restituições, subitamente me vi alçado à condição de pagador (ou seja, ganhei mais do que o imposto retido na fonte supunha), e de uma quantia que me assustou: o equivalente a um mês de salários. Primeiramente, discuto o meu caso: um mês de salário é até pouco diante dos valores que se divulgam normalmente, como os 27,5% sobre a renda mensal no extrato mais elevado (ou seja, não um mas 3 meses de salário) ou da carga tributária no país, que chega perto de 40% (quatro meses). Um mês só? Estou no lucro!
Mas aí a segunda pergunta: quem pode dizer que um mês de ganhos não faz falta? Se eu tivesse que pagar de uma vez só, simplesmente não saberia de onde tirar esse dinheiro. Bem, saberia, mas a sensação é de que não se está disposto a pagar. Antes de começar a gritaria contra o pagamento, entretanto, eu fiz alguns exercícios de relativização que valem a pena. Convido o leitor a pensar em sua própria situação a partir desse meu exemplo.

Quem paga a conta?

Primeira coisa: o valor do imposto é injusto? Eu, e acredito que boa parte dessas classes médias, tem como história de família a "ascensão pelo trabalho" (não apenas meu, mas de meus pais, meus avós, e por aí vai), e a lembrança de todas as dificuldades para alcançar esse novo patamar ainda estão frescas na lembrança (sempre há alguém na família que faz questão de lembrar isso). Por essa perspectiva, pagar imposto parece uma "punição" pelo próprio sucesso. Isso só faz sentido se aceitamos a premissa de que o "sucesso" se deve unicamente ao esforço individual, o que eu não concordo (não vou entrar nessa discussão agora, mas estou a meio termo entre essa ideia individualista e a de que o esforço individual não tem influência nenhuma). Se, por outro lado, reconhecemos que nosso sucesso é resultado de uma conjunção de fatores que incluem uma boa parcela de outros esforços individuais, há nessa tributação alguma forma de recompensa ou retribuição. Por outro lado, há também que considerar o princípio moral do Homem Aranha, segundo o qual "grandes poderes trazem grandes responsabilidades". E eu custei para acreditar ao me dar conta de que eu, que a duras penas pago todas as contas e me mantenho sem grandes luxos ou supérfluos (e muitas vezes acabo o mês no vermelho), faço parte da porção de maior renda da população brasileira (possivelmente não o topo da pirâmide, mas o extrato "B"). 
O problema é que o fosso abaixo de mim parece sem fundo. Vi essa mesma discussão quando foi aprovada a "PEC das Domésticas": no fim, pessoas se queixando de ter que arcar com os custos de uma família extra (a da empregada). Acho que há quem consiga sim, mas não são todos, e nem é a maior parte da "classe média". Se considerarmos o nível de vida da população mais pobre, é possível que até possamos, mas não deveria ser esse o critério. Como eu disse, o poço parece não ter fundo, e há famílias que se sustentam com o salário mínimo (nem sei como). Deveria ser assim? Acho que não. A mesma ideia parece se aplicar ao imposto de renda: é como ter que tirar do próprio bolso e pagar um salário a alguém.

Pagar pra quê?

Segunda pergunta: imposto para que(m)? Ao Estado, é a resposta óbvia. E aí duas queixas comuns: de que o Estado não retorna proporcionalmente à população aquilo que arrecada; e de que a arrecadação "sustenta a corrupção (ou os corruptos)". Aí vale ponderar um pouco as coisas. Primeiro, o retorno dos impostos pode ser relativizado, e meu amigo Carlos Kikuti fez isso magistralmente em seu texto "Brincando com números" (veja aqui) - a conclusão é que parece haver uma relação entre o aumento de carga tributária e o desenvolvimento de um país: "desenvolvimento custa dinheiro em impostos" e "a única coisa que se pode dizer do Brasil é que ele poderia cobrar ainda mais impostos" (volto já à questão: cobrar de quem?). Por outro lado, as notícias que mostram o Brasil reduzindo a desigualdade há mais de uma década graças, em parte, às políticas de distribuição de renda (Bolsa Família, entre outros) mostra que há sim um retorno do Estado para a população, mas numa dimensão mais ampla: não um retorno individual a quem pagou, mas um retorno à população como um todo. Quem pagou mais está, indiretamente, financiando a redução da desigualdade no país. Não era pra se orgulhar disso? Aí a questão da corrupção. Bom, não quero perder tempo com julgamentos morais, mas posso dizer que, se por um lado é verdade que a corrupção (o desvio de verbas públicas, e a - adivinhem? - sonegação fiscal) prejudicam muito a capacidade do Estado de implantar políticas públicas de desenvolvimento e redução de desigualdades. Mas também é verdade que a escolha do Estado em privilegiar o atendimento a interesses privados específicos (como os bancos, conforme mostra esse artigo aqui) atrapalha muito mais. E, bem, precisamos reconhecer que o Estado está melhorando seu retorno à população a despeito da corrupção. Corrupção esta que não existe no Brasil há apenas dez anos (como alguns parecem acreditar) e, mesmo que tenha piorado (o que eu acho muito discutível), foi acompanhada de importantes melhoras.
Na realidade, creio que a queixa contra o pagamento de impostos deva ser entendida em duas dimensões: a da sensação de insegurança que acomete essas classes médias, e uma sensação de que, uma vez que a desigualdade é tão acentuada no país, uma renda razoável parece autorizar os institutos de pesquisa de mercado, as políticas públicas e outros igualem perfis de renda muito discrepantes: de fato, acho que há entre eu e um banqueiro uma diferença tão grande quanto a que me separa do miserável lá na base da pirâmide. E aí temos duas coisas a consertar, talvez.

Insegurança como regra de vida

A sensação de insegurança a que me refiro não se refere apenas à violência, ainda que a inclua. Muito do medo da violência que a "classe média" tem se refere aos crimes contra o patrimônio - aquele mesmo "conquistado com esforço e com méritos próprios, etc". Não por acaso, a cobrança de impostos é frequentemente descrita como um "roubo", e o mesmo valendo para a corrupção. Mas há outro aspecto da insegurança que considero mais decisivo: o medo de que, por circunstâncias diversas, o trabalhador médio se veja privado de sua renda (a de seu trabalho) e seja lançado ao poço - aquele que não tem fundo. Não é um medo infundado nem injustificado. E quem escala o poço sabe que não quer voltar lá pra baixo. Pois se nossa sociedade não consegue garantir que, no caso de perda do trabalho/emprego, a pessoa não perca suas garantias básicas de sobrevivência, então temos um problema real. A solução pra isso requer que o poço tenha fundo, e que o fundo seja trazido para mais perto da superfície. Isso inclui combater a corrupção em suas várias formas (e não só aquela que os jornais mostram, mas principalmente a que eles omitem), a qualificação dos serviços públicos (o aumento do uso desses serviços pelas classes médias pode contribuir muito para isso, ao quebrar o estigma de que serviço público é "para pobre"), uma política de garantia de renda mais consistente (seguro-desemprego e afins) - e, neste caso, para isto é preciso quebrar o mito e o preconceito de que essas garantias estimulariam a "vagabundagem".

Valores

A redução da desigualdade, enfim, é a única maneira de assegurar que o esforço de combater a miséria e proporcionar essa segurança descrita acima seja uma responsabilidade compartilhada pela maior parte da população. Como está hoje, uma pequena fração apenas tem condições de assumir essa responsabilidade (e, sim, eu e você fazemos parte dela). A "pirâmide" da renda precisa adquirir a forma de um balão: muito maior no centro do que na base: isso proporcionaria um ganho de escala que possibilitaria atenuar o peso dos tributos sobre a parcela média. E, claro, se queremos fazer justiça tributária, há que estabelecer o princípio de que quem ganha mais paga mais. Nosso sistema atual tem, entre outras perversidades, a característica de funcionar ao contrário disso.
Para que a nossa sociedade consiga superar suas dificuldades, é preciso que cada um de nós se veja não apenas como um indivíduo isolado (e em disputa com todos os demais) e assumir um projeto coletivo - que, no fim das contas, beneficiará a todos. Há nisso elementos de generosidade e de solidariedade, que normalmente são tidos apenas como qualidades pessoais - mas, diferentemente da ambição, ela se expressa para além da pessoa e alcança o outro. Nossas classes médias precisam urgentemente cultivar em seus membros esses valores: generosidade para com os desiguais, e solidariedade para com os iguais. No primeiro caso, reconhecer que o esforço empreendido resultará numa melhoria para todos; e no segundo, uma disposição de articular com seus semelhantes um conjunto de pautas comuns a serem demandadas do Estado e das elites: basicamente, a melhoria e consolidação dos serviços públicos que garantam a segurança de vida para todos - e também para essas classes médias.
Esses valores de responsabilidade, generosidade e solidariedade me tranquilizam um pouco em relação ao pagamento de impostos: se eu posso eu pago sim, e vou ficar feliz de ver que, também nesse aspecto, eu estou "fazendo a minha parte". E se eu consigo perceber que isso é um investimento de longo prazo que se reverte também a meu favor, fazendo com que eu tenha menos medos - de um momento de instabilidade profissional, de um criminoso ou mesmo de andar na rua com algum bem adquirido - posso me convencer de que o preço está bem pago.

24 de fevereiro de 2014

Do rim aos direitos, um ensaio sobre a dor

Faz uma semana que passei por uma cirurgia para retirada de cálculo renal - a famigerada e infame "pedra no rim". A operação foi relativamente simples, mas a convalescença deu mais trabalho do que eu esperava: dois dias internado, mais o resto da semana com um "Duplo J", um cateter entre o rim e a bexiga que incomodava muito, doía, sangrava... Tudo isso coroando um processo que se arrastava havia dois meses, desde a primeira crise, no começo de dezembro de 2013.
Numa das conversas com enfermeiros no hospital, eu me peguei descrevendo as dores que sentia com aquela conhecida expressão: "não desejo isso nem ao meu pior inimigo". Eu não considero que tenha de fato qualquer inimigo, mas nos tempos conturbados em que vivemos, de tensões e conflitos à flor da pele (e da terra), de uma escalada da violência e da intolerância, não pude deixar de pensar no significado daquela expressão à luz da experiência de dor física (real, quase palpável) que estava vivendo naquele momento.
Não pude deixar de pensar também naqueles que adoram apontar contradições nos outros indivíduos (meu deus, o que poderia ser mais humano do que ser contraditório em certos momentos?) e ameaçam com a hipótese de que quando algo "acontecer com você" esse "discurso" dos direitos humanos cairá por terra e se revelará a verdadeira hipocrisia de quem a professa. Pois, meus caros, sinto desapontar a esses: a vivência da dor me fez ainda mais fervoroso na defesa desses direitos.
Mas... o que uma coisa tem a ver com a outra?
Bem, em primeiro lugar, quero contar o que aprendi com a dor. Primeiro: a dor não é racional nem sentimental - a não ser quando usamos, metaforicamente, a noção de dor para se referir a outras formas de sofrimento. A dor é física, e mobiliza o corpo, contra qualquer ideia preconcebida, se preciso. Talvez isso se alinhasse com a ideia de que um sofrimento real poria por terra a defesa de direitos a quem inflige sofrimento. Mas avancemos.
Segunda lição: tudo o que uma pessoa que sofre de dor deseja é que a ela cesse. Nada mais. Se alguém lhe disser que com morfina a dor passa, você permite que lhe apliquem morfina. Quanto maior a dor, mais irracional é o desejo de vê-la passar, e nessa hora parece que aceitamos qualquer promessa ou proposta. Consigo perfeitamente usar essa ideia para pensar em pessoas em situação de abstinência de qualquer vício que seja. Mas também em situações de desespero, aí o recurso ao misticismo, à religião (qualquer uma), a fórmulas mágicas de vida e livros de autoajuda.
Terceira: a dor é intransferível, não se compartilha. Aí é que a coisa complica. Se eu estou com dor, quero que a minha dor passe. Alguém dizer que a do outro é maior que a minha não alivia a dor em si. Dizer que "alguém vai pagar" pela dor que você está sofrendo não faz com que a dor seja mais suportável. Aí é que o desejo de vingança, para mim, se esvazia por completo: infligir dor ao outro não interfere em nada na minha própria dor. Matar o outro não traz o ente querido que foi morto.
Quarta e última: dor não é medida de mérito. Não há dor justa ou injusta, moral ou imoral. Quando atinge alguém, não existe nisso nenhum "castigo", e não faz sentido achar que há uma escala de dor proporcional a uma escala de pecado, com correlação entre a gravidade de um e a intensidade do outro. Exatamente pelos motivos das outras lições, eu não vejo nenhuma eficácia em considerar a dor como uma medida educativa ou punitiva. Ela não vai ensinar nada. Vai apenas despertar um instinto ou uma reação orgânica de defesa, de fuga, o que seja. Qualquer medida punitiva precisa ser facilmente identificada com o delito a que se refere, e a dor não pode fornecer esta identificação. 
Daí chegamos à sentença original: "não desejo isso nem ao meu pior inimigo". Que, em outras palavras, poderia ser: "não quero que ninguém sofra o que eu sofri". Por que eu quereria? Se quando estou sentindo dor, quero apenas que ela passe, se não adianta "compartilhar" a dor com outro que a minha não passará por causa disso, se ela será inútil em ensinar qualquer lição ao "inimigo", de que serve desejar a dor do outro? Esse desejo só é concebível por quem já não sente a dor, e só é verdadeiramente desejável por aqueles que nem tem mais a lembrança real de uma dor verdadeira.
Pensamentos como "foi pouco, tinha que ter dado um tiro na cabeça" são na verdade frases de efeito sem lastro. Sua enunciação revela apenas uma desconexão completa entre o que é dito e o significado do que é dito, uma alienação entre o conceito e a experiência da dor. Não consigo imaginar que pessoas normais e saudáveis se mantenham impassíveis ou até contentes diante de uma pessoa se contorcendo de dor, por exemplo. Digo "normais e saudáveis" porque para mim, evidentemente, um torturador ou um assassino não se enquandram nessa descrição, e sofrem daquela desconexão/alienação que citei.
O problema é que, talvez, a alienação em nossa sociedade tenha chegado também a essa esfera da vida pessoal: deseja-se a morte de alguém como se fosse apenas apertar um botão em um game e ver um corpo se estilhaçar. Ver uma pessoa urrando de dor é cena corriqueira em filmes do tipo "mocinho e bandido" dos mais diversos matizes: o "bandido" tortura um inocente, mas depois será devidamente punido, com altas doses de dor e sofrimento. Se nos acostumamos a ver isso em filmes e games, será que não é possível supor certo torpor nos nossos sentimentos de empatia, de identificação com a dor do outro? Se as "razões" justificam e perdoam, é possível ouvir o grito de dor, o corpo se contorcendo, e não sentir que interromper aquilo é urgente - é humano.
Quem ganha com essa indiferença para com o outro? Eu não. E sempre que ouvir ou ler qualquer relato de tortura, agressão, mutilação, seja da parte que for, com razão e com justiça ou não, eu imediatamente me lembrarei da minha pedra, me solidarizarei com o que sofre e desejarei que ele não seja novamente submetido à dor, de nenhuma espécie. Temos meios mais educativos, mais eficientes... e mais humanos de ensinar a quem erra qual a melhor maneira de não errar de novo.

18 de janeiro de 2014

Eugenia e urbanidade: notas sobre discriminação, segregação e o espaço urbano

Desde que começou o noticiário e o debate em torno dos "rolezinhos" nos shoppings, eu tenho pensado em escrever algo sobre esse fenômeno. Mas ao me deparar com uma notícia de pessoas barradas em processo seletivo para emprego sob acusação de "poluição visual e mau cheiro", acabei lembrando de algumas passagens da minha dissertação de mestrado - que este ano sairá em livro (aguardem!) - sobre a relação entre o pensamento eugenista, no princípio do século XX, e a organização do espaço urbano no Brasil, e em particular em São Paulo. Embora normalmente a eugenia seja associada a um discurso médico, eu argumento que também as práticas de organização do espaço urbano foram, com frequência, imbuídas de uma ideologia segregacionista e racista (no sentido de promover e defender práticas voltadas à "melhoria da raça", e também no sentido mais usual de discriminação especificamente de "negros" e "pardos"). A seguir, alguns excertos do livro, que podem facilmente ser relacionados ao debate atual em torno dos "rolezinhos".
Com o crescimento das cidades, a reordenação dos espaços urbanos se fez uma necessidade para as elites, e o higienismo tomou para si tal tarefa [...] – mas também a eugenia, com a contundente imposição de normas severas para regulara vida social das populações. O eugenismo brasileiro está intimamente ligado a essa tendência ruralista encontrada em certos segmentos da elite nacional nas décadas de 1920 e 30. [...] Contudo, mais importante para este trabalho doque a apologia eugenista do agrarismo é de fato o conteúdo explicitamente antiurbano.[...] Atribuído em grande parte ao crescimento urbano, o crime recebeu dos baianos uma abordagem que incidia, na realidade, sobre o criminoso– numa busca de sua classificação e tipificação. Parte de uma disputa entre médicos e juristas sobre a primazia na definição do criminoso, os médicos o concebem como um doente que difere dos demais apenas pela natureza de sua doença.
Em diversas passagens, os autores eugenistas se mostram praticamente em consenso quanto ao caráter “disgênico” das cidades.Esse entendimento justificou, por parte dos adeptos da eugenia, uma notável adesão à campanha sanitarista então em voga. A atuação dos eugenistas nesse campo, entretanto, caracteriza-se especialmente pelo disciplinamento das massas trabalhadoras através da noção de“higiene mental”, mais do que uma atuação de fato sobre o espaço físico das cidades. É desta forma que se deve compreender a influência da eugenia no pensamento urbanístico da época: afixação e “justificação” de uma atitude aparentemente“antiurbana” entre os médicos.
[...] Sob os preceitos da higiene mental foi criado, pelo dr. Antonio Carlos Pacheco e Silva, o Sanatório Pinel de Pirituba, para suprir a demanda proveniente do processo de urbanização e combater os “detritos da civilização” . [...] Muito interessante é a idéia, defendida por Pacheco e Silva, do papel potencialmente degenerador dos meios de comunicação:(...) o rádio com seu formidável poder de difusão de idéias, a facilidade de comunicações entre os mais afastados continentes advinda com a aviação aérea, os incalculáveis avanços das ciências físicas e naturais exerceram poderosa influência sobre o espírito humano, que não teve ainda o tempo necessário para sedimentar tamanha messe de conhecimento. Se daí resultaram grandes benefícios para a humanidade, se o homem moderno usufrui de maior conforto, resultante das novas descobertas, paga por outro lado maior tributo ao progresso e, dentre esses tributos, um dos mais caros é,sem dúvida, o número crescente, e por que não dizer assustador,dos desequilibrados do espírito. (apud COUTO, 1999:19, 1994:20-1)
A intensa urbanização do período fez emergir a questão da loucura, à medida que a maior concentração populacional acaba sendo interpretada como fonte potencial de“epidemias psíquicas”. Essa concepção é assim expressa por Renato Kehl:
A situação, sobretudo nas grandes coletividades, chega a tal gravidade que se admite, francamente, ‘ser impossível lutar vitoriosamente contra o viciado meio social’ (...) Ninguém poderá negar que a vida artificial e artificiosa em que vivemos arrasta inúmeras pessoas às doenças mentais. (...) a par do pauperismo e da ignorância, destaca-se outro elemento importante de degradação– o urbanismo hipertrofiado. (KEHL,1937:19, 76).
De forma semelhante se expressa o doutor Pacheco e Silva:
Freqüentemente, nas grandes aglomerações, os homens deixam-se conduzir por indivíduos tarados, portadores de estados psicopáticos,de idéias mórbidas de reivindicação, de delírios pleitistas, de idéias delirantes de perseguição. Tais tipos mórbidos são dotados de grande capacidade de proselitismo e são extremamente ativos na defesa de suas idéias mórbidas, razão por que exercem grande influência sobre as massas. (apud COUTO, 1994:25-6).
A declaração acima introduz também uma importante formulação do movimento de higiene mental eugenista: a admissão de fatores sociais, e sua vinculação a finalidades políticas, como elementos “disgênicos” – no caso, o ativista político passa a ser tratado como um paranóico. O mesmo era aplicado, com muita frequência, às feministas da época. As mulheres, concebidas pelos eugenistas como “sacerdotisas da Eugenia”, frágeis física e intelectualmente, deveriam se enquadrar em rígidos moldes comportamentais sob risco de terem sua cidadania esvaziada sob o diagnóstico de “enlouquecimento” – o feminismo era visto como uma ameaça à família.Seria considerado sintoma de loucura, além desses, qualquer “desviocomportamental” que pudesse representar ameaça à propriedade(avarícia, vício de jogos, prodigalidade).
Assegurar a ordem social, cada vez mais “ameaçada”pelo crescimento das cidades, foi um dos principais papéis atribuídos às instituições psiquiátricas, e a grande motivação para criação do Sanatório Pinel de Pirituba, que pudesse descentralizar o serviço psiquiátrico do Juqueri, já superlotadona década de 1920. O Sanatório de Pacheco e Silva deve ser entendido como uma resposta ao crescimento da cidade – e um exemplo do esforço eugênico para ordenação do espaço urbano –, para o qual contribuíram membros da elite social paulista, capitalistas,comerciantes e advogados, sem falar dos médicos.
As preocupações da saúde pública com a loucura e o crime, no entanto, representam apenas parte da herança deixada pela eugenia ao pensamento sobre as cidades. Outra parte é apresentada pela preocupação com questões de ordem demográfica – as quais fazem sentido apenas num contexto de alta concentraçãopopulacional, como nas cidades. Assim, não é de se estranhar que os eugenistas tenham representado um papel tão importante no desenvolvimento da estatística. Nela se baseava todo seu método: as comparações que permitem estabelecer os limiares entre o normale o anormal (ou ainda o subnormal, termo que persiste incólume no vocabulário técnico de descrição das condições de moradia) são estatísticas; também o são todos os instrumentos de projeção de tendências demográficas, com as quais se permite extrapolar, como retrato de uma população total, o resultado obtido em uma pequena amostra. Independente da validade ou não de tais extrapolações,o que se percebe é que os avanços da demografia estatística permitem olhar o urbano sem nele entrar – sem se misturar à multidão.
[...] Por fim, a ideologia antiurbana, que no Brasil se apoiou fortemente no eugenismo a partir das décadas iniciais do século XX,deveria ser doravante confrontada sempre com essa associação entre as condições de vida de um ambiente urbano e a degradação (moral)de suas populações. Basta lembrar que essa interpretação sempre parte de uma representação que coloca o grau “elevado”, o padrão de comparação, no modo de vida da elite.
Tal associação, sabe-se, não é criação da Eugenia.A novidade que esta traz é a formulação de instrumentos políticos e institucionais para combater a “degenerescência”, que não é senão o crescimento da população pobre em comparação com a rica.Esses instrumentos têm um princípio basilar: melhorar as condições de vida dos mais pobres significa incentivar sua “proliferação”;em compensação, o investimento em benefício das elites tem o papel“salutar” de promover a expansão do “melhor estoque humano”.Este princípio basilar é expressamente proposto por Francis Galton, e mesmo que a discussão sobre “melhoria da raça” tenha sido aparentemente superada, trata-se mais de uma mudança de termos e vocabulário do que de fato do conteúdo ideológico.
Assim, diversas formas de repressão violenta do“crime”, praticadas ainda hoje e com apoio de diversos setores da sociedade, carregam essa carga simbólica de “combate aos degenerados”. Encontram-se diversos resquícios de eugenismo na idéia de que a expulsão dos pobres irá melhorar um dado ambiente ao livrá-lo da criminalidade, ou da baderna – formulação repetida exaustivamente em tantos programas de “requalificação”,“revitalização” ou outros “re’s”. O argumento de que o urbanismo não teria sido influenciado diretamente pela eugenia é, portanto, frágil: em muitos casos, serviu como um instrumento eficaz de eugenização tácita do espaço urbano. De resto, quando se constata que, atualmente, “ricos vivem mais e pobres morrem maiscedo”, testemunha-se uma situação em que o projeto social de Francis Galton se encontra em pleno andamento.

9 de outubro de 2013

Em meio ao nevoeiro

Sempre me questionei sobre como agiria em momentos de “crise” política: se tivesse vivido nos anos 1960, que posicionamento eu teria diante do golpe militar? Será que eu me engajaria na luta armada, ingressaria na contracultura, faria uma oposição cuidadosa, ou simplesmente recuaria de medo? Essas questões reaparecem agora e não mais como uma especulação “histórica”, mas como um chamado. Isto porque, tudo indica, vivemos atualmente outro desses momentos.
Um dos desafios de momentos como esse é a dificuldade de olhar “o todo”, de se ter uma compreensão “global” do que está ocorrendo e o que está em jogo. Antes de abril de 1964, parte significativa da esquerda brasileira não apostava muitas fichas na iminência de um golpe de Estado. Sempre há aqueles que se afirmam capazes desta compreensão, mas eu não consigo confiar nisso. Para mim, trata-se de pensar em um modo de agir em meio a um “nevoeiro”. Nestas horas, já dizia Paulinho da Viola, parece ser prudente fazer como o velho marinheiro e levar o barco devagar.
Outro desafio é a polarização: num cenário dual, ou você é “claro” ou “escuro”. Ou é “direita” ou é “esquerda”. Ou é a favor ou contra a democracia. Parece-me incrível que velhos termos dicotômicos tenham reaparecido, especialmente as denominações “comunista” e “fascista”, e todas as suas derivações (“chavista”, “neoliberal”, “petralha”, “tucanalha”, etc.). O risco é de generalizações descabidas, de simplificações. Com minha veia de pesquisador, não consigo aceitar esquematismos e “preto & branco”. Interessam-me os matizes, os cinzas, e principalmente aquilo que “não se encaixa” nas interpretações fáceis. Isto, para mim, é o humano em essência. Se fosse possível imaginar uma sociedade perfeitamente equilibrada e igualitária, a contradição binária seria útil como um movimento dialético (tese x antítese > síntese), mas não é o caso: falamos de uma realidade em que o grau de poder é profundamente desigual, a possibilidade de uso da violência é assimétrica, e uma aposta na polarização pode nem sempre (mas não digo “nunca”) ser a escolha mais acertada.
Em momentos de crise como o nosso, a violência aparece ou é posta em evidência, e parece que somos impelidos a dizer qual violência é ou não aceitável. De um lado, tendo a achar sempre que a solução violenta não é a melhor, em nenhuma circunstância. Mas como responder a uma força repressora / opressora que julgamos injusta? Se não for possível sequer cogitar o uso da força como resposta, que alternativas restam? Resignação ou submissão, até onde posso ver. Há outra? Gostaria de conhecer sugestões. Uma expressão violenta é, necessariamente ilegítima? O que denominamos “violência”? Em que medida ela pode ser tolerada? Violência contra seres humanos e contra a vida, parece ser um consenso, é ilegítimo. Será que a ideia de violência se aplica também a “coisas” (a bens e propriedades)? E se for, quanto de violência seria aceito contra essas coisas – bens privados, bens públicos...
Em momentos como os atuais, o chamado à ação parece sempre urgente e coercitivo, e parece não haver tempo de parar para refletir. Mas talvez seja o mais importante: evidenciar as dúvidas, as lacunas. Elas é que abrem as portas para possíveis diálogos.
Este é um texto de mais dúvidas do que proposições. E quero encerrar mesmo desta forma, colocando ainda outra questão. Esse clima de crise parece trazer para o primeiro plano o impulso “destrutivo” humano – a violência, o ódio, a raiva. Onde fica o humor, o riso, a alegria? Será que não estamos disputando, fundamentalmente, uma noção de felicidade?

23 de setembro de 2013

Eles também cantaram um dia: 10 canções, 10 revoluções - Baderna Midiática

Neste post eu compartilho um post maravilhoso do coletivo Baderna Midiática. Uma seleção de 10 músicas que são relacionadas intimamente a revoluções, protestos populares e manifestações de massa pela história - começa com a Turquia contemporânea e recua até o movimento ludista do princípio do século XIX!
Além da seleção espetacular (algumas canções, sem exagero, são de chorar de emoção), uma cuidadosa pesquisa histórica que proporciona descobertas incríveis - e algumas surpresas, como a canção "La Cucaracha". Sim, esta mesmo que você está pensando: ela é um hino da revolução zapatista!
Reproduzo, a seguir, o texto de apresentação do post. Em seguida, o link para que você mesmo possa se deliciar e emocionar com esse repertório.
Desde junho dezenas de músicas foram lembradas ou criadas por inspiração da experiência viva da tomada das ruas em todo o país. O Hino à Rua, feito pelo coletivo Baderna Midiática, é apenas uma dentre outras canções, como esta esta. É claro que também surgiram produções puramente mercadológicas, sem qualquer relação com o movimento que tomou as ruas, ou ainda aquelas que, bancadas pela grande mídia, procuram arrancar das manifestações seu espírito contestador. Mas existe hoje, como existiu em todos os momentos como este, a resistência do movimento popular contra os que querem impor suas bandeiras, seus símbolos e suas canções.
O que importa lembrar é que desde que há revoluções e insurreições populares as canções estão presentes a animar a luta. Uma mostra disso está na lista abaixo, na qual incluímos 10 músicas acompanhadas por uma breve apresentação e pela letra traduzida para o português. A seleção inclui apenas canções que são inseparáveis de momentos revolucionários ou insurrecionais, seja porque foram feitas em meio às batalhas, seja porque inspiraram os que lutaram. Começamos nosso percurso na Insurreição de Istambul, ocorrida pouco antes da tomada das ruas no Brasil, e o concluímos mais de 200 anos atrás. A lista poderia ser muito maior, pois ao que parece não há revolução que não se expresse musicalmente.
O Blog Baderna Midiática e este post podem ser acessados aqui.

5 de setembro de 2013

A força do que tem de ser

Orientando um trabalho de graduação, tenho me dedicado a pensar algo que, na realidade, sempre foi uma questão inspiradora e desafiadora para mim, a ideia de "utopia". Quero partilhar algumas dessas ideias, mas para isso vou recorrer a uma "trilha sonora". Este texto é também, em grande parte, um tributo a esta que tem sido a minha trilha nos últimos meses.
Eu começo dizendo que entendo existirem dois tipos fundamentais de utopia, que vou chamar de o "modelo" e o "horizonte". O modelo é a utopia completa, formal, geralmente estática. O horizonte é o que, nas palavras de Eduardo Galeano, nos mantém caminhando. O modelo é uma representação acabada, o horizonte é permanentemente inconcluso. O modelo é visto do alto e de fora, o horizonte exige o percurso. Os dois são frutos da vontade e da imaginação humana, mas ao modelo é possível conceber a utopia de forma completamente intelectualizada; o horizonte é a utopia corporificada. Daí que a utopia-modelo, incapaz e inábil de trato com o diverso, tende a se aproximar do autoritarismo, enquanto a utopia-horizonte, forjada no movimento, chama ao contato e à partilha. Em suma: interessa-me a utopia-horizonte, e é dela que vou falar daqui para a frente.
Para isso, "convoco" a minha trilha sonora: o grupo português Deolinda. O poder da utopia-horizonte está presente em grande parte da obra deste grupo que tem sido minha paixão musical recente, a começar pela canção que inspira o título deste post:


A requintada urdidura das cordas tangidas pelos irmãos Luís José e Pedro da Silva Martins, sustentada pelo pulso de José Pedro Leitão no contrabaixo, forma a base musical sobre a qual passeia Ana Bacalhau, voz e vida das canções de Pedro Martins (a cantora diz que, na adolescência, sonhava em ser Janis Joplin. Na minha opinião, está mais próxima de outra musa dos sixties, Grace Slick, ao transitar com assombrosa desenvoltura entre a delicadeza tocante e o inconformismo contundente, a graça e a força). As canções de Deolinda realizam uma proeza que poucos conseguem: amplificar a vivência pessoal e o tom confessional em uma experiência coletiva, social - e, evitando o tom panfletário, fazer o caminho de volta: dar a essa experiência coletiva uma feição humana, concreta (o sambista Adoniran Barbosa, que inspirou o título deste blog, é outro exemplar desta rara espécie). Assim, por exemplo, a xenofobia, o racismo ou o ódio de classes são sintetizados no episódio da devolução de uma carteira perdida, em "Medo de mim". 
A vontade, a tentativa (e por vezes o fracasso) em sair de um estado de conformismo são um tema recorrente na obra do grupo, desde o "Movimento Perpétuo Associativo", do seu disco inaugural.


O tema reaparece no disco mais recente, Mundo pequenino, que já foi chamado de "manifesto anti-inércia", com justiça. Em diversos matizes, o conformismo é compreendido mas rechaçado ("Há-de passar", "Gente Torta"). No pequeno conflito "conjugal" de "Pois foi", articulam-se as indignações com um relacionamento morno (ou morto) e com o país. Qual poderia ser a matéria-prima da utopia, sobretudo da utopia-horizonte, se não o inconformismo?
Mas não se trata de apenas diagnosticar um estado de letargia, porque a utopia é também um chamado à ação e ao envolvimento, como nos versos de "Concordância": "somos sujeitos, queremos verbos, bons complementos diretos, queremos frases afirmativas", na melhor tradição das canções de chamamento. 
E é aqui que o horizonte se distancia do modelo, porque se demanda o envolvimento direto, pessoal e corporal, que é certamente mais trabalhoso, penoso, cansativo - porém mais honesto e democrático.
Pois essa dimensão da vida também é retratada pelo grupo: "Doidos" é uma ode ao corpo. "Ele diz que o corpo não é uma culpa / É sim uma festa que se quer na lua / (...) E em cada corpo cabe a eternidade". Porém, o que em mãos menos habilidosas poderia se tornar um mero exercício de sensualidade egocêntrica, aqui preserva a perspectiva que entende o homem como animal político: "Ele diz que o corpo não se privatiza", "Ele diz que o corpo não é trabalho / Não é um produto, nem é um fardo". Entre tantas grandes interpretações, Ana brilha nesta canção, ao brincar com a melodia e texto, rindo "é doido!" e sussurrando "doida". Pois a utopia-horizonte não é sisuda e não pode ser mal-humorada. "É doida"! É alegre (como diria Oswald de Andrade, a alegria é a prova dos nove...).
Resta falar da confiança expressa por "Seja agora". E aqui está, talvez, a beleza fundamental da utopia-horizonte: ela não se ressente da não realização completa, da sua própria imperfeição. O que nos move é uma confiança essencial, mais do que uma simples esperança. "Sei que vai ser porque tem de ser" é diferente de apenas dizer que "o dia virá": "se é pra acontecer, pois que seja agora". Sem precisar dizer, a canção aponta para um universo muito mais amplo, e assim mesmo continua sendo uma singela canção de amor: "Nós havemos de nos ver os dois / Ver no que isto dá / Ficar um pouco mais a conversar / Ter a eternidade para nós /Quem sabe jantar / Se tu quiseres, pode ser hoje". O que é melhor, e mais reconfortante (e isso pode tirar mais uns tantos de nós da letargia) é que nenhuma das possibilidades da canção exclui a outra. A própria mensagem talvez fosse menos compreensível se não fosse a melodia tão envolvente, tão feliz (arrisco dizer que é uma das canções mais felizes que ouvi nos últimos anos. E, para quem é um beatlemaníaco confesso, este não é um elogio banal!).
A uma geração que cresceu habituada a ouvir e aceitar que a mudança era impossível, que desde cedo foi ensinada que aceitar e se adaptar é o caminho de menor sofrimento, e que via essa impossibilidade expressa numa arte niilista (como a música dos anos 1990) e que parecia ver como única saída uma catástrofe apocalíptica (quantos filmes deste tipo foram produzidos na virada do século?), Deolinda mostra um outro caminho, que se vale do corpo, da alegria, que gera movimento, que brinca e que toma as ruas ("Sai de casa e vem comigo para a rua / vem, q'essa vida que tens / por mais vidas que tu ganhes / é a tua que mais perdes se não vens"):

A utopia-horizonte que se apresenta neste princípio de século XXI tem, antes de tudo, o grande mérito de enterrar de vez qualquer reivindicação imobilista de "fim da história" ou o que o valha. Se terá "sucesso"? Já teve, em nos fazer andar de novo - ou melhor, de nos manter caminhando. O dia que virá depois certamente não será o último, e talvez nem seja o melhor, mas será o seguinte.
***
No final de julho, o grupo se apresentou aqui em São Paulo, e fui assisti-los na última noite (28 de julho - o dia das imagens mostradas no vídeo acima), num momento pessoalmente difícil. A experiência individual-coletiva que vivi naquela noite foi de um arrebatamento que não serei capaz de pôr em palavras agora. Mas posso dizer que seus desdobramentos não se encerram neste texto. E eu hei de agradecer pessoalmente a Deolinda por me chamar para a rua, de corpo inteiro, com alegria. E sei que vai ser.

6 de agosto de 2013

Uma homenagem a Adoniran

Seria muito injusto da minha parte não prestar uma homenagem hoje, dia em que se celebram 103 anos de nascimento do sambista Adoniran Barbosa, ao inspirador do próprio nome deste blog. Gostaria de escrever muito mais, mas por ora vou apenas transcrever um trecho da minha tese (pra quem tiver interesse, pode acessar o texto completo aqui), em que falo de um aspecto de sua vida, nem sempre muito ressaltado.
A partir de meados dos anos 1930, Rubinato passa a buscar com afinco a realização do desejo de trabalhar como artista de rádio, intento que alcançou na década seguinte. O que não deixava de ser uma escolha audaciosa, considerando que “artista”, na década de 1930, era sinônimo de vagabundo (...). Cantor de rádio, então, nem se falava. Pouquíssimos eram profissionais (...), sobrando para a maioria uma espécie de mendicância pelas estações atrás de oportunidades” (CAMPOS JR., 2004: 24). Ainda assim, uma escolha que denotava um acurado senso de oportunidade, visto que as numerosas novas estações de rádio que surgiam então na cidade estavam “abrindo um formidável campo de trabalho para cantores, comediantes, speakers, músicos e radioatores” (idem, p. 31). 
Para tanto, mobilizou todos os recursos de que dispunha: como o trabalho de vendedor lhe possibilitava andar pela cidade, não tardou para que identificasse onde encontrar outros músicos, atores e demais artistas, apresentadores e técnicos, e se fizesse conhecer por eles. A construção dessa “rede” de contatos propiciou-lhe algumas oportunidades de testes em emissoras, parcerias em composições e participação em concursos de carnaval (portas começaram a se abrir quando sua composição Dona Boa – parceria com José Aimberê - ganhou o concurso de marchinhas para o carnaval de 1935). 
O fato é que, na base de tenaz insistência, o jovem Rubinato acabou sendo aceito na rádio Record no início dos anos 1940. Sua primeira fonte de renda era um cachê de 15 mil-réis por uma participação semanal de 15 minutos na programação da emissora. Com isso, teve a possibilidade de ampliar seus contatos, agora também com pessoas do meio fonográfico, além de roteiristas e produtores de programas radiofônicos, entre outros.
Nos insistentes e contínuos esforços de João Rubinato para se tornar Adoniran Barbosa, fica minha homenagem a quem, melhor do que ninguém, cantou os trabalhadores de São Paulo no século XX.



14 de junho de 2013

São Paulo, 13 de junho de 2013: relatos

Em casa, em estado de choque e trêmula, após quase ter sido presa por uma polícia despreparada, covarde e violenta. Acompanhei a manifestação desde o início, na frente do Teatro Muncipal. Saímos de lá tranquilamente, muitas famílias, pais com crianças pequenas nos ombros... Muita tranquilidade e gritos de "sem violência". Tudo calmo, a passos lentos, sem correria. Passamos por boa parte do centro, entre os carros (grande parte dos motoristas com os vidros abertos e apoiando a manifestação), motoristas de ônibus e passageiros nos saudando com palavras de apoio. Até chegarmos à Consolação e sermos recebidos com balas de borracha, bombas de efeito moral (gás, pimenta, não sei que merda era aquela), só sei que comecei a passar mal e corri para uma rampa de garagem (da Justiça Federal, ironicamente) e desisti de seguir. Falei aos meus amigos que iria ficar ali pelo fato de não conseguir mais enxergar e que esperaria a polícia passar. Todos correram e a polícia ficou e ATACOU todas as pessoas que como eu, pararam por não ter mais forças pra correr. Perguntei ao policial o que eu deveria fazer e ele disse: ou corre com a multidão ou fica e vai presa, porque nós vamos prender quem ficar aqui. Decidi ficar por não ter mais força mesmo e também por não acreditar que aquilo fosse acontecer. Todos que estavam ali, estavam passando mal, esgotados e sem forças para correr. Ao vermos os policiais descerem a rampa em nossa direção com armas em punho e com gritos de "cala a boa, caralho"... (estávamos todos quietos e calados), eu entendi que iríamos presos. Ou que iríamos apanhar muito. Não apanahmaos porque tinha gente da imprensa conosco. Mas ficamos de cara pra parede, com mãos pra cima e sem abrir a boca. O policial continuou apontando armas para todos, revistou as nossas bolsas e deu ordem de seguir em fila para o ônibus. Assim os primeiros fizeram...Não sei com que coragem, saí da fila e pedi pelo amor de deus (humilhante) para não ser presa. Implorei, me humilhei e por sorte fui tirada da fila e jogada junto aos jornalistas. Nunca passei por tamanha humilhação em toda a minha vida. Me descontrolei ao ver todos que estavam comigo, entrando no ônibus, escutei policiais covardes falando ao celular com colegas, perguntando sobre o que fazer e dando gargalhadas e repetindo a frase: "é pra levar praí e aí vocês descem o cacete, né? hahahaha, estou enviando o primeiro ônibus, recebe eles aí". Polícia despreparada e covarde. Manifestantes pacíficos e corajosos! Infelizmente eu não terei mais coragem de ir na próxima. Meu total apoio, respeito e admiração a todos que lá estiveram e minha eterna gratidão aos jornalistas que me acolheram e que me levaram até o metrô de volta pra casa. Sem eles, eu teria me descontrolado e teria um ataque de pânico frente à tamanha brutalidade. Não fotografei nada por não ter muita prática com foto de celular, mas não poderia deixar de relatar aqui o que passei. Infelizmente, eu não tenho mais coragem e me sinto um lixo por ter salvado a minha pele enquanto os outros que estavam comigo estarem presos desde então.
J. C., cidadã paulistana

Fui testemunha hoje do caráter pacífico da passeata. Cheguei na Praça da República 10 passos à frente do movimento, que vinha cantando e tocando tambores. Medo dava era do aparato policial "preparado" para a ocasião: furgões e mais furgões da tropa de choque aguardando com homens paramentados de cima a baixo, carros e mais carros, além de motos da PM, um sem número de policiais de prontidão e disseram que houve até cavalaria (não é, B. V?). A M. P. disse que gritou "Ditadura!" e o policial respondeu "Cala a boca que você pode ser presa!".... Oi?? O T. L. disse que, na terça-feira, se protegeu numa estação de metrô e jogaram uma bomba de gás lacrimogênio DENTRO da estação!! E agora vejo relatos e mais relatos de gente que estava lá e sofreu/viu a truculência, como a T. M. R. Atenção! NÃO estou dizendo que não houve vandalismo por parte de alguns do movimento. Só acho que precisamos realmente olhar com mais cuidado a unilateralidade da mídia e, consequentemente, da opinião da maioria da população, sobre o assunto.
M. M., cidadã paulistana

Nenhum fotógrafo, nem um dos milhares de cinegrafistas amadores, e muito menos emissoras de televisão que flagraram o momento, conseguirão reproduzir com tamanha maestria a tensão devastadora que cobriu a Rua da Consolação hoje, cerca de 20h30 da noite, da forma como EU vi. No segundo andar do estabelecimento em que estudo, como assistindo de camarote e de um ângulo excepcional – exatamente no meio do fogo cruzado -, presenciei aquela cena triste: polícia e manifestantes, após muita correria, prostraram-se frente a frente, encarando-se em absoluto silêncio, como o confronto final de um filme de aventura, quando os estudantes revoltosos, a fim de transmitir o que queriam desde o começo, levantaram os braços e se sentaram no meio da avenida, em um nobre pedido de paz. Alguns segundos depois, seus antagonistas, de cima de seus cavalos e de trás de seus escudos, responderam-lhes impiedosamente com tiros e bombas.
V. T., cidadão paulistano

Acabo de retornar dos protestos na região central de São Paulo. Fui somente como observador, com dois objetivos: saber quem são os ativistas e tentar descobrir como começam os atos de violência. O que vi e ouvi:
1. Milhares de jovens se concentravam pacificamente na praça Roosevelt quando, sem nenhum motivo aparente, a polícia iniciou um intenso bombardeio. Bombas de gás lacrimogênio explodiam sem parar, produzindo estrondos muito altos e assustadores. Nunca presenciei nada parecido no centro da cidade. Os ativistas, pelo menos naquele momento, não reagiram. Muitos apenas gritavam: "Sem violência, sem violência!" Mesmo assim, a artilharia prosseguiu. O ar se tornou irrespirável e os manifestantes começaram a se dispersar.
2. Corri em direção à rua Rego Freitas, quando recebi máscaras cirúrgicas, distribuídas por moças e rapazes que se encontravam diante do coletivo Matilha Cultural. Eles nos convidavam a entrar. Ali, as máscaras eram encharcadas com vinagre, substância que corta o efeito do gás lacrimogênio.
3. Quando retornei à rua, havia sacos de lixos pegando fogo e algumas caçambas tombadas _tudo no meio da via, para impedir o avanço da tropa de choque. Rumei em direção à rua da Consolação. Mal cheguei ali, na altura do Mackenzie, avistei uma quantidade grande de policiais motorizados, que ocupava toda a pista sentido bairro. Naquele ponto, um ônibus pichado fora abandonado, mas já não ocorria nenhuma manifestação. Dispersos, os ativistas se misturavam à população que não se engajara no movimento. Caminhei alguns metros pela calçada quando me deparei com um cordão policial bastante hermético, que bloqueava a rua. Mais adiante, bombas explodiam, sem que eu pudesse ver o que estava acontecendo. O ar começou a ficar novamente irrespirável. Um dos soldados se dirigiu a nós, que simplesmente caminhávamos, apontou uma arma com balas de borracha para o chão e gritou: "Dispersar, dispersar!" Começou a atirar. Todo mundo correu, lógico.
4. Sem ter como prosseguir pela Consolação, decidi pegar o metrô na estação Santa Cecília. Andei até lá. Ao longo do caminho, muitos jovens conversavam em pequenos grupos, sem nenhum policial por perto. Quando entrei na estação, dei de cara com uma fila imensa. Eram centenas e centenas de passageiros que tentavam cruzar as catracas. Como as ruas das redondezas estavam bloqueadas, só lhes restava pegar o metrô. Fiz um cálculo rápido e concluí que levaria muito tempo para conseguir embarcar. Resolvi andar até a avenida Pacaembu, onde acabei tomando um táxi.
5. Quanto aos manifestantes: os que vi são, na maioria, bem jovens _talvez tenham entre 18 e 25 anos. Aparentavam pertencer à classe média e morar longe das periferias (ATENÇÃO: não há, nessa observação, nenhum juízo de valor). Chamou-me a atenção especialmente a coragem e a convicção com que encaravam a reação da polícia. Algo de muito forte e genuíno parece movê-los, para além da reivindicação em torno do transporte público. Ainda não compreendi exatamente o que é.
A. A., cidadão paulistano

Cheguei ao ato por volta das 18:30, estávamos na Ipiranga e lá permanecemos parados um tempo, para subir a Consolação, quando começamos a subir a avenida estava tudo bem, um movimento totalmente pacífico. Até que o Choque chegou, da alça da Amaral Gurgel, e ao ouvir o grupo entoar "sem violência" já tascou umas balas de borracha. Eu vi, foi do meu lado! Logo depois nos (não sei quantos milhares) cercaram e prensaram na Roosevelt, jogando bomba de gás lacrimogênio por todos os lados, foi muito tenso, porque era muita gente tentando se livrar das bombas, correndo. Essa foi a primeira dispersão, subimos (uma parte) a Augusta, mas por onde quer que fôssemos, aparecia o choque, as bombas e a correria, depois também veio a cavalaria. Dada hora eu já nem queria mais achar o ato, só queria arrumar um jeito de sair da ratoeira que a PM foi armando na cidade, com uma truculência totalmente gratuita, injustificável e inacreditável.
L. T, cidadã paulistana

Não tenho palavras pra falar as coisas que passei hoje, mas por enquanto, fiquem só com os momentos finais: nós na Paulista, choque fechando a Augusta/Paulista, choque fechando Augusta/Consolação, nós corremos pra entrada do metrô e não nos deixaram entrar. Estávamos lá pedindo pra abrirem a estação quando passam na calçada 10 motos em alta velocidade com policiais dando cacetada na gente gritando HOJE NÃO TEM METRÔ.
Eu queria ter quebrado o metrô pra entrar e vir pra casa. Eles não estavam deixando as pessoas irem pra casa.
Isso foi só o final.
Quem tiver coragem de chamar os manifestantes de vândalos a partir de hoje merece só meu desprezo. Fiquei na manifestação das 17h as 20h30 e não vi nenhum ato de vandalismo. Vi policial tacando bomba de gás e bala de borracha em QUALQUER AGLOMERAÇÃO. Uma senhora levou uma bomba na cara porque estava parada numa esquina da Consolação.
E os manifestantes diziam: não corram. Mantenham a calma. Eles querem nos desesperar, vamos ficar juntos. Todo mundo junto. Mas não dava: quando você vê as pessoas correndo atrás de você gritando choque e as bombas estourando a alguns metros não há o que fazer a não ser correr.
Não sei se as pessoas têm ideia do que aconteceu hoje em SP.
C. L., cidadã paulistana

Hoje foi um dia histórico, um 13 de junho de 2013 para marcar um ponto de virada! As maiores manifestações populares em São Paulo e em todo o país, o despertar de uma nova geração para as grandes campanhas nacionais de lutas sociais!
Começou um novo movimento popular, fora do controle do PT, CUT, UNE e todos os traidores aliados com o PSDB. A dupla Haddad/Alckmin declarou guerra contra o povo! Agrediu sob o olhar do país inteiro uma marcha gigantesca e pacífica sem nenhum motivo!
O movimento, é óbvio que vai crescer!
Agora é indignação, o que faltava para o nosso país entrar na onda das primaveras de lutas dos povos do mundo.
Uma campanha de luta popular que vai crescer.
O próximo ato vai ser maior!
Quando juntarmos centenas de milhares nos protestos os governantes vão se dar conta que erraram, subestimaram o povo, desafiaram a juventude e agrediram a cidadania!
H. C., cidadão paulistano

Agora são 21h e acabo de receber a ligação do M. S. que informa estar entre milhares de pessoas encurraladas pela tropa de choque e PM na Avenida Paulista que foi totalmente bloqueada. M. informa que foram bloqueadas todas saídas e acessos da Paulista e a força militar não deixa ir embora nem manifestantes, nem pessoas que estão contra a manifestação, nem trabalhadores que nada tem a ver com o evento. Portanto, M. está desesperado, pedindo ajuda de quem puder. Pediu para que divulgasse aqui no mural na esperança de socorro. Segundo ele a polícia está atirando indiscriminadamente com balas de borracha na direção de uma multidão encurralada. Informou também que já vomitou várias vezes e que não tem como fugir.
C. C.,  cidadã paulistana

Clima de ditadura: Fui detido na Praça do Patriarca hoje a caminho do ato no Teatro Municipal. Eu e o camarada Anderson estávamos caminhando pelo calçadão da Rua Direita, carregando faixas enroladas. Nos detiveram, fomos levados atrás de umas viaturas, ali nos revistaram. Como não tínhamos vinagre conosco seríamos soltos, mas um oficial que viu as faixas nos mandou para o paredão onde estavam detidos os que foram pegos com vinagre. Ficamos quase meia hora com as mãos na cabeça, de frente pra parede sem poder olhar pra trás, recebendo ameaças de que apanharíamos. Interrogaram se tínhamos passagem pela polícia, pegaram nossos documentos. Enquanto isso todos que foram pegos com vinagre foram sendo colocados nos camburões e levados à delegacia. Um perguntou: "Mas por que estou sendo preso?" e a resposta: "Cala a boca senão apanha! Vai se explicar pro delegado!" Nós fomos liberados por não termos vinagre! Prenderam dezenas por "porte de vinagre"?! Tomaram nossas faixas. Assim começava o ato contra o aumento das tarifas em SP...
C. D., cidadão paulistano

Alguém sabe como cortar os efeitos do gás lacrimogêneo, uma vez inalado? Estou com ardor nos olhos, na garganta, até na língua. E com tontura. Descia a Consolação a pé, pois precisava ir ao Sesc para conferir uma estreia teatral (meu trabalho). Não tenho carro; fui de metrô até ali. Havia visto um número grande de PMs na esquina com a Paulista, e os ônibus e carros estavam parados no sentido centro. Continuei caminhando; muitos outros pedestres iam e vinham também. Na altura da Fernando de Albuquerque, os manifestantes começaram a chegar. Gritavam "sem violência, sem violência". Um ou outro carro tentava furar a manifestação, mas tudo ia bem. Parei na esquina, liguei para uma amiga que me acompanharia e avisei-a que eu provavelmente não chegaria. Teria que voltar para casa. O helicóptero sobrevoava exatamente aquele local. Tudo parecia seguir tranquilamente: manifestantes calmos, motoristas conformados. Subitamente, algo explode. Os jovens começaram a correr e a voltar para a Fernando Albuquerque. Eu ainda falava ao telefone. Algo explode ao meu lado. Gás branco. Não enxergo direito, começo a tossir. Todos correndo. Desespero. Outro explosão. Gritos. Instinto de sobrevivência: saí correndo também. Um rapaz chutava as placas, outro espalhava o lixo – sob severas reprimendas dos demais. "Cara, não faz isso, você está desmoralizando a gente!" Eram os mesmos dois fazendo baderna por onde passavam. Um terceiro quebrou o vidro de uma padaria bem do meu lado. Senti algo molhado caindo em mim, não sei o que era. Ele carregava uma garrafa; foi contido por outros dois rapazes. "Para com isso, não tem nada a ver!" O baderneiro começou a berrar: "Não me toca, não me toca, quer encarar?" Nova explosão. Mais gás. Alguém quebra o vidro do carro lá na frente, toca a fogo em algo. Corremos. Eu não parava de tossir. Encontrei um canto qualquer para respirar. Uma moça me viu e ofereceu água. A duras penas, correndo daqui e dali, olhos ardendo e tosse, cheguei de volta ao metrô. Do que vi: (1) A polícia reagiu com truculência a nada. Posso atestar: os manifestantes estavam calmos. (2) Há, sim, um grupo de baderneiros que se aproveita da situação. São poucos e contudentes, mas não representam o movimento. (3) Gás lacrimogêneo é foda. (4) Essa manifestação pode ter começado contra o aumento de R$ 0,20, mas hoje se transformou numa manifestação contra a supressão de nosso direito à cidade. (5) Eu me senti, sim, atacada pela polícia. É meu direito, sim, andar por uma via pública. Eu sinto, sim, os efeitos dos R$ 0,20 a mais porque só uso transporte público. E essa cidade é tão minha quanto de vocês. Fazer manifestação é direito nosso. Obrigar-me a inalar gás lacrimogêneo, definitivamente, pode me dar náuseas e dor de garganta. Mas não tira nem tirará minha voz ou meu direito de protestar. Senhor Geraldo Alckmin, o senhor não me representa. Polícia, a senhora não me "protege".
M. F., cidadã paulistana

Meu filho está na manifestação. Preocupado, acompanho tudo pela TV. O ato era absolutamente pacífico até às 19 horas. Jovens protestavam de forma civilizada. Alguns andavam de skate. A polícia escoltou os manifestantes do Teatro Municipal até o início da Consolação. “Paz entre a Polícia e o Povo", podia ser lido num cartaz. O apresentador da TV elogiada o ato. Mas, se a manifestação permanecesse pacífica, o que o governador iria dizer aos jornais? Nada. O MPL teria dado uma lição de democracia. De repente, de forma absolutamente inesperada e inacreditável, apareceu a tropa de choque e a cavalaria. E investiram contra estudantes e jornalistas com bombas e tiros por todos os lados. Encurralados, dispersaram em muitos focos. A polícia continuou encurralando-os por todas as esquinas. O governador conseguiu seu objetivo: transformou um direito constitucional – que vinha sendo exercido de forma democrática e pacífica – em ato de “baderneiros”. A truculência e a violência praticadas pela polícia são inaceitáveis. Estou indignado. Governador: sua tropa de choque parou São Paulo Bufalo. Parabéns! Ministro da justiça: a “baderna” foi obra do Estado e não dos manifestantes. Truculência e ameaça á democracia é o fato de que nas últimas duas décadas a tarifa do transporte público em SP subiu o dobro da inflação no compasso do caos da mobilidade urbana. Privatizaram tudo e o lucro foi para o bolso de empresários. Isso é que é violência, governador. Minha vontade é de ir para as ruas.
E. F., cidadão paulistano

Sinto que está apenas começando.
Hoje eu fui na manifestação tarifa zero.
Fomos eu, Daniela Teixeira, Thiago Mundano, Tulio Kengi Malaspina, Haldor Omar e André Takahashi, partindo da Estufa as 17:30. Pegamos um onibus na vila madalena e fomos ate consolação, parada pelo transito. Ao descer, mais 3 pessoas que estavam no onibus desceram conosco para o protesto. No trajeto ate o teatro municipal, a multidão foi juntando. pessoas de diversas idades e classes sociais, todas reunidas.
Sentimento de indignação reprimida, de descontentamento borbulhante, de revolução iminente - o aumento da tarifa é só um catalisador.
Ao chegar no teatro, a marcha ja tinha saído. Milhares de pessoas na rua, ate onde o olho conseguia ver. corredores de policias, prontos para atacar.
Ja no inicio, manifestantes eram pescados da multidão por grupos de policiais, abordando de forma incisiva e planejada.
Um cheiro de emboscada no ar.
Ao chegarmos na consolação, frente a praça roosevelt, um muro fardado nos esperava.
Ate esse momento eu nao havia presenciado nenhum tipo de vandalismo. pelo contrario, flores no cabelo que cobriam caras esperançosas e apreensivas, coros quase que ensaiados justapostos ao ar de preocupação.
Assim que a massa se aproximou do muro, a repressão começou, recebido por um grito unificado de "Sem violência!". Rastros de bombas de gás cobriram o ceu iluminado por sirenes, e fumaça pouco a pouco subia, cegando a todos os presentes. A reação variava entre pânico, desespero e raiva.
Nesse momento nosso pequeno grupo, unido desde o começo, se encontrou com a Júlia da Fonseca e o Pablo Capilé, entoando um grito de calma, por breves instantes, qdo o veneno das bombas foi mais forte que a vontade de resistir.
Ao recuar, uma outra ofensiva policial pronta para fechar o cerco se aproximava. Parte da multidao se dispersou para a praça roosevelt, outra parte na rego freitas, onde havia uma brigada de primeiros socorros heroica armada apela MATILHA CULTURAL.
Nesse instante as ofensivas avançaram dispersando a multidão, e a brutalidade policial desencadeou o vandalismo dos manifestantes.
Ao buscar um caminho para reagrupar, só barricadas da policia, tornando a missão suicída.
Constantemente, bombas explodiam pelo ar, interrompendo o som dos helicópteros.
Quem vinha, vinha atordoado, quem ia, ia com medo.
ao encostar num boteco, o choque foi grande com a cobertura da mídia, acusando os "baderneiros", com sua retorica incisiva, distante e sensacionalista. o termo terrorismo foi usado. a persistencia no fato que existiam rumores que 1 policial havia sido machucado gravemente. Na matilha, mais de 50 foram socorridos.
Nesse hora comecei a receber mensagens da Juliana Nolasco Ferreira e do @vinicius russo, relatando os pontos de tensão. Decidi não retornar, por medo de entrar numa emboscada.
Deixo aqui meu breve e sincero relato, de alguém que estava lá e viu, de perto, a realidade.
Bravos os brasileiros que foram
Bravos os brasileiros que lutam pelos seus direitos
Bravo!
Estarei em todos os próximos, e convido a todos que ousem lutar por algo a nos acompanhar. Sinto que está apenas começando.
C. T., cidadão paulistano

Acabei de voltar do ato e nunca vi tanta repressão. A PM não deixou a manifestação subir a Consolação (que ela fechou pro choque) e recebeu pessoas gritando "Sem Violência" e com flores nas mãos com bomba e bala de borracha. Correria, cada turma subiu por um lado (Angélica e Bela Cintra). O que vi? Muitos motoristas buzinando ao som das palavras de ordem, outros tantos emputecidos querendo sair dali, e, dentre as 1000 pessoas que segui, cruzei com 2 anarcos gritando "É vandalismo" - ao que reagi pra ser chamada de burguesa e quase levar uma voadora de um menino de 16 anos. Depois da sétima correria, com a bomba explodindo nas minhas costas, voltei pra casa, com medo, pela primeira vez na vida, de sair na rua pra reivindicar uma coisa na qual acredito. Agora que vi a foto da repórter da Folha, tenho certeza de que meu medo tinha razão de ser. Talvez agora, com tanto jornalista preso e machucado, as pessoas comecem a entender o papel que a PM ocupa nos atos. A liberdade de expressão está sendo ferida desde o primeiro ato, na prisão de anônimos pra desmobilizar o movimento. Minha única certeza depois de hoje, é que a covarde dessa história não sou eu.
B. C., cidadã paulistana

NÃO ACREDITEM NA TV!!!
EU ESTAVA LÁ!
Eu vi uma manifestação que só não era mais lotada que a Sé no horário de pico. Mas muito mais organizada, com certeza.
Estávamos subindo a Consolação, cantando, pulando, tudo tranquilo, os motoristas nos carros que estavam no caminho buzinavam nos apoiando, NENHUMA depredação.
Passaram uns 20 soldados da tropa de choque do nosso lado, correndo para a frente da manifestação, todos já se assustaram e começaram a gritar "Violência não". Em minutos bombas de gás lacrimogênio explodiram, policiais à frente, policiais atrás, ficamos encurralados na praça Roosevelt. À partir daí foi um salve-se quem puder.
Corri por uma rua ao lado da praça para longe das bombas e vi diversos carros de polícia vindo no sentido contrário.
RESUMINDO: Covardia dos policiais! Se aquilo virou uma "praça de guerra", é só ver: quem estava preparado para a guerra? Com bombas, armas escudos e capacetes? Os manifestantes não, com certeza.
70 presos. Querem ganhar na base do medo. Eu tenho medo, medo da violência policial. Mas minha coragem de estar lá nos próximas manifestações será maior.
A quem ainda acha que "é tudo baderna, vandalismo", convido a comparecer a uma manifestação, ver as coisas além das lentes de TV, e tirar suas próprias conclusões.
COMPARTILHEM ESSE DEPOIMENTO, as mentiras dos telejornais não podem ser maiores que as verdades das ruas.
B. A., cidadão paulistano

Estava à frente da manifestação, vi a PM abrindo a Consolação pra massa subir após negociação, eram 2 carros e várias motos fechando. Eles liberaram...
Vou pegar uma cervejota no primeiro bar da maria antonia, preparando pra subida.
De repente, da Cesário Mota, uns 10 PMs com escudo aparecem e fecham a Maria Antônia. Não havia nenhuma hostilidade! Os caras se juntaram, ombro com ombro. Pensei “é merda”.
Começam que nem doidos a atirar bomba pra todo lado, inclusive pra rua q estava vazia.
A PM começou a merda, ninguém me contou, vi a cena a 5 metros.
P. E., cidadão paulistano

Vou relatar até aonde eu consegui seguir a Manifestação contra o Aumento da Passagem hoje dia 13/06, por favor repassem ao máximo!
Nos reunimos no Theatro Municipal, gritos de protesto, muito tambor batendo, muitas pessoas, muitas MESMO. Saímos de lá e pegamos a Avenida Ipiranga, até ai tudo tranquilo, eu fui primeiro no meio da manifestação e depois fui a frente junto com a bandeira principal. Da Ipiranga seguimos até o começo da Consolação, parando por vezes para reunir o pessoal, na Consolação, perto da igreja e da praça Roosevelt a coisa começou a pegar, tentaram negociar para a polícia deixar a gente subir, quando a tropa de Choque veio pela direita, próximo a Rego Freitas, e ai começou.
Bombas de efeito moral que se seguiram por de gás lacrimogênio, meus olhos ardiam, mas doía mais por saber que não tínhamos feito NADA, só estávamos protestando, batucando e exigindo o direito de todos! Alguns revidaram, mas logo foram contidos, muitas vezes voltamos e fomos a frente no meio da Consolação, mas mesmo assim choviam bombas e balas de borracha. Não dava. Nessa hora meus olhos já lacrimejavam. Alguns jornalistas estavam ilhados no meio da Consolação cobrindo e provavelmente foram esses que foram alvejados conforme matéria que já saiu na imprensa.
Seguimos então pela Caio Prado e após pela rua Augusta subindo, viramos na Antonia de Queirós e seguimos pela Bela Cintra, mesmo os carros parados, alguns muitos nos apoiavam e buzinavam pra ajudar a fazer barulho, a galera no prédio batia palmas e seguíamos com flores que haviam sido distribuídas anteriormente, fomos até a Fernando de Albuquerque e tentamos entrar na Consolação de novo, quando começamos a subir desceu o Choque que estava na Paulista com a Consolação esperando. Voltamos correndo pela mesma rua devido as bombas e as balas, mas não entramos na Bela Cintra, quando estávamos chegando na Augusta novamente o Choque, voltamos e aqui corro no risco de nomear as ruas erroneamente porque o Choque estava a frente jogando bombas e atrás também.
Sim! Fomos ENCURRALADOS ENTRE DUAS RUAS SEM CHANCE DE DEFESA E FUGA.
Mesmo assim seguimos em frente ao Choque e pegamos a direita acredito que na Haddock Lobo, viramos e os grupos já haviam se dispersado.
Durante a subida mesmo correndo do Choque vi um menino que parou para avisar uma senhora idosa que estava na porta de casa para entrar e fechar as janelas pra se proteger do Choque. Seguimos por algumas ruas até subir a Peixoto Gomide, perto do Trianon, e aí sim.
PARAMOS A PAULISTA.
Cabe ressaltar que não estávamos destruindo NADA e nosso grito de guerra era "Sem Violência!". O que alguns aprontaram pelo caminho muitos arrumaram.
Conseguimos permanecer por uns 5 minutos e lá vem o Choque de novo, sem cerimônia, sem nem pestanejar, já tacaram bombas e ai corri mais uma vez, já não aguentava mais correr, operei a perna a 3 meses e ainda me recupero, não sei da onde tirei forças, e ai cedi, entrei no Trianon e embarquei na linha Verde para a Consolação.
Na Consolação desci e no meio da estação já a correria e pessoas passando mal com o gás que havia entrando dentro da estação, um outro grupo foi pego por lá, pessoas que não tinham nada a ver foram alvejadas por balas de borracha e bombas de gás lacrimogênio. Ajudei um trio que falava espanhol e uma menina passando mal, ofereci água, o pouco que ainda tinha, conversei um pouco pra saber se eram da Manifestação e confirmei, não eram, estavam passando e conforme relataram já chegaram tacando bombas e atirando.
Dali segui pela linha Amarela, Vermelha e enfim casa.
Esse é o meu relato, embarquei no metrô um pouco mais que 20h30. Pessoas me olhavam, conversavam, algumas falavam alto que queriam ver isso na época da Ditadura. Simples eu estaria lá também.
E no próximo eu estar
ei de novo!
L. B, cidadã paulistana

22 de abril de 2013

Thiago Alves: Na Amazônia, aumenta a intimidação a movimentos sociais


Assembleia de atingidos pela usina de Belo Monte. Foto: MAB
por Thiago Alves*, no site do MAB, via e-mail (22 de abril de 2013)

Enquanto avança a luta dos povos amazônicos contra o modelo de desenvolvimento que beneficia apenas uma minoria, o Estado brasileiro aprofunda o autoritarismo, criminaliza as organizações e espalha o medo na população. Dois episódios ocorridos no início de abril confirmam como o Estado e suas instituições são o braço forte que protege o interesse das grandes empresas que destroem a natureza, concentram riqueza e violam direitos humanos.

Em Altamira, oeste do Pará, a juíza Caroline Slongo Assad, da 4ª Vara Civil da Comarca local, expediu na semana do 14 de março, Dia Internacional de Luta Contra as Barragens, um interdito proibitório contra o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e o Movimento Xingu Vivo para Sempre, sob pena de multa diária de R$ 50 mil.

Atendendo ao pedido do Consórcio Norte Energia (NESA) e do Consórcio Construtor Belo Monte (CCBM), a juíza proibiu que fosse feita qualquer manifestação próxima às instalações de Belo Monte, com o argumento de que o MAB intimida funcionários e representa ameaças para um empreendimento que é “de grande importância para o país e de grandes proporções, sendo por isso um dos alvos prioritários dos réus neste momento”.

Na mesma semana foi publicado o decreto presidencial de nº 7.957, que instituiu o Gabinete Permanente de Gestão Integrada para a Proteção do Meio Ambiente (GGI-MA), regulamentou a atuação das Forças Armadas na proteção ambiental e apontou as funções da Força Nacional de Segurança Pública no que se refere “ao aumento da eficiência administrativa nas ações ambientais de caráter preventivo ou repressivo”.

Com base neste decreto, o Ministério de Minas e Energia, com o apoio jurídico da Advocacia Geral da União (AGU), encaminhou ação militar denominada Operação Tapajós. Mais de 250 membros da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal, da Força Nacional de Segurança Pública e das Forças Armadas desembarcaram em Itaituba, também no oeste do Pará, e depois se dirigiram para as proximidades da terra indígena Munduruku.

O argumento do governo é que havia a necessidade de garantir a segurança dos mais de 80 técnicos durante o mês de estudos de viabilidade da obra que só poderiam ser realizados com a cheia máxima do rio no inverno amazônico. O exagero da Operação foi reconhecido pela Justiça, que no dia 16 de abril suspendeu a expedição e exigiu que indígenas e comunidades ribeirinhas fossem consultados previamente sobre as obras projetadas.

Autoritarismo, intimidação e violência: esta é a linguagem das grandes empresas quando o assunto são os direitos humanos. Assim está claro também nas manifestações de trabalhadores de Belo Monte que quando lutam por dignidade, respeito e melhores condições de trabalho são duramente reprimidos pela mesma Força Nacional de Segurança Pública, com métodos semelhantes aos praticados na ditadura.

Estes episódios mostram para o conjunto das organizações que é preciso fortalecer a articulação, o trabalho de base e a denúncia permanentes porque o grande capital aprofunda seus interesses dentro do Estado brasileiro, utilizando-se de todos os instrumentos jurídicos e militares para amedrontar a população e criminalizar os movimentos sociais.

É tempo de não ceder à intimidação, denunciar a violação do direito à informação e à livre manifestação garantida na Constituição Brasileira e em diversas leis internacionais e, sobretudo, mostrar para os inimigos do povo e seus aliados que na Amazônia a luta ficará ainda mais forte no campo e na cidade, construindo a resistência e buscando um modelo de desenvolvimento com participação e à serviço do povo.

*Thiago Alves é integrante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)

13 de abril de 2013

Violência e desrespeito aos direitos no Brasil

Cada vez que um novo crime envolvendo um menor de idade comove o país, ressurge o debate sobre a redução da maioridade penal. Trata-se de uma reação imediata (portanto intempestiva), apressada (portanto imatura), passional (portanto irrefletida), que teve como reação uma série de artigos e posts em outros blogs buscando mostrar que não há uma relação real entre o problema apontado - a criminalidade praticada por menores de idade - e a solução proposta - a possibilidade de esses menores serem condenados à prisão comum. Numa série de charges, o cartunista Angeli ironiza a redução da maioridade penal adotando um procedimento muito simples: levando a ideia ao limite. Como li em algum comentário por aí, o que aconteceria se a redução estabelecesse o limite de idade para 16 anos (em vez dos atuais 18) e um crime parecido fosse cometido por um adolescente de 15 e 11 meses? Reduziríamos novamente para abarcar mais este "delinquente"? De redução em redução, chegaríamos então ao seguinte:
Acho que há duas questões centrais na defesa da redução da maioridade penal que devem ser discutidas: uma é a ideia de que a maioridade de 18 anos "protege" ou "encobre" os crimes praticados por pessoas menores do que a idade limite. A segunda é a ideia de que é possível reduzir a idade porque menores de 18 já têm "consciência de seus atos", ou seja, "sabem o que estão fazendo".
Vou aqui me concentrar na discussão do primeiro ponto, e para isso reporto-me ao trabalho da professora Teresa Pires Caldeira, em seu livro Cidade de Muros. Resumindo muito o seu argumento, o que temos é que a ausência de direitos efetivos para toda a população resulta na ideia de que direitos são um "privilégio". Historicamente, as classes dominantes monopolizaram esses direitos e "privilégios". Os direitos humanos não eram estigmatizados quando se tratava de lutar pela redemocratização e fim das prisões políticas de integrantes da classe média. A associação de "direitos humanos" com "defesa dos bandidos" ganhou corpo quando as lutas pelos defensores dos direitos humanos passaram a reivindicar a universalização de direitos (civis, políticos e outros). A denúncia de que os crimes tidos como "exceções" do regime militar eram, na verdade, práticas corriqueiras de opressão da população mais pobre ampliou o universo daqueles a que se pretendia conceder direitos. A reação a essas lutas partiu de antigos defensores do regime militar (como Afanásio Jazadji - precursor e modelo dos ratinhos e datenas atuais) que, com acesso à mídia, propararam um discurso de que esses direitos resultariam em aumento da insegurança porque garantiriam a proteção de "bandidos". Num momento de crise econômica (a grave recessão do início dos anos 80) com enorme aumento do desemprego e da insegurança estrutural de trabalhadores, inclusive de classe média, boa parte da população acabou absorvendo a ideia de que os defensores dos direitos humanos pareciam se importar mais com os "bandidos" do que com os "trabalhadores de bem" que, naquele momento (e de forma constante nos anos 80 e 90), viam seus próprios direitos serem precarizados e subvertidos por uma ordem econômica perversa. Uma retórica do ressentimento justificou, então, o argumento de que os "bandidos" eram "protegidos" por pessoas que não "se importavam" com as pessoas "honestas", como se os "privilégios" da classe dominante tivessem sido concedidos à população pobre à custa da exclusão das classes médias. Como resposta, em lugar de apoiar a ampliação generalizada dos direitos, uma parcela dessa classe média passou a defender a manutenção dos direitos apenas para privilegiados (incluindo-se entre eles, é claro) e a oposição a qualquer ampliação de direitos da população mais pobre.
Nos anos seguintes, o Brasil passou por um período de violenta concentração de renda (resultado da "hiperinflação" dos anos 80 e das práticas neoliberais implementadas durante a década seguinte), que se traduziu na restrição ainda maior das oportunidades de melhoria de vida da população pobre. Em paralelo, a ideologia individualista do neolliberalismo legitimava a noção de que o progresso é o resultado do "mérito" individual (esforço, trabalho, dedicação e outras qualidades pessoais), sem levar em conta condições sociais mais amplas, como as diferenças na rede de oportunidades à disposição dos diferentes grupos sociais, o capital social de cada grupo, entre outras. Mas uma vez, a luta por melhorias das condições sociais e de democratização dos serviços públicos e estruturas sociais (uma ampliação das oportunidades de ascensão social) foi entendida por aquela parcela mais conservadora da classe média e das elites como uma extensão de "privilégios", portanto uma injustiça para com os trabalhadores médios, para quem restava apenas o esforço individual. O ressentimento recrudesceu.
A velhíssima equivalência entre "pobres" e "criminosos" obscureceu a visão de que a ampliação dos direitos coletivos visava a uma redução de desigualdades estruturais e historicamente persistentes da sociedade brasileira. Para isso colaboraram as imagens das favelas, as notícias sobre o tráfico, a amplificação de notícias que retratavam a violência de jovens e pobres contra trabalhadores e "pessoas de bem" inocentes. Misturando e equivalendo todas essas mensagens, criou-se uma "cultura do medo" que tinha como resposta o enclausuramento e a formação de enclaves fortificados e protegidos (convenientemente disponibilizados pelos empreendedores privados, desde condomínios fechados até segurança privada), a reivindicação de maior "controle" e "punição" dos crimes e o maior disciplinamento da população pobre.
Resta discutir a outra questão por trás da reivindicação de redução da maioridade penal: os menores de idade "sabem" ou não o que estão fazendo? Fica para o próximo post.

28 de março de 2013

Militares x torturadores

Numa série de reportagens muito interessantes e importantes, a Rede Brasil Atual vem mostrando relatos de militares que se opuseram à ditadura instaurada em 1964 (confira aqui), e o preço que pagaram por isso. Torturas, perseguição, destituição, ostracismo... Não, nem todos os militares foram favoráveis ao regime, nem todos foram torturados (alguns, como vemos, foram também torturados), e nem todos se alinhavam ao pensamento retrógrado que acabou por prevalecer.
Ao que parece, as dissidências foram purgadas da corporação, e não sei dizer até que ponto a discordância tem espaço entre os militares ainda hoje. Basta lembrar que, todo ano, o Clube Militar continua celebrando a "Revolução de 31 de março", e continua destilando o seu ódio contra as esquerdas, os programas reformistas (e nem estamos falando de "revolução"), os movimentos sociais, e toda tentativa de democratização ampla da sociedade.
Esse anacronismo só faz mal ao país, começando pela própria corporação: que legitimidade tem para a população essas forças armadas que continuam combatendo "comunistas" ou "terroristas" em pleno regime democrático?
O pior é pensar nas resiliências: muitos dos oficiais que implantaram a ditadura em 1964 eram originários da ditadura anterior (o Estado Novo), as técnicas de tortura e de "inteligência" (espionagem) que foram desenvolvidas e aplicadas nesse período se mantiveram na democracia (dita "populista") que se seguiu, e foi só retomada e reforçada no regime militar que se seguiu. Qual a chance de vermos isso acontecer de novo, uma vez que ex-apoiadores da ditadura militar continuam aí, ativos e cada vez mais explícitos na defesa do Estado de exceção?
E, enfim, os verdadeiros inimigos da democracia precisam ser identificados com mais clareza. Apontar apenas para os militares é redutor, simplista e - o que é mais perigoso - ilusório.