28 de novembro de 2006

Música popular, que bicho é esse?

Todo mundo tem alguma idéia do que seja música popular. Mas na hora de dar uma definição, percebemos o tamanho da dificuldade: o termo é tão vago, aberto, ambíguo, que as coisas mais díspares podem ser incluídas nessa categoria. E, pior, uma mesma coisa pode ser considerada popular ou não.

A proposta deste projeto é, em vez de tentar definir a priori o que entendemos por música popular, explorar as várias ambigüidades e contradições do termo (e dos termos associados: “cultura popular”, “povo”, etc.), cada um podendo formar sua opinião e tirar suas próprias conclusões a respeito. Trata-se de um repertório de amplas possibilidades, muitas oportunidades de descoberta e “provocações”, desde que não se pretenda enfatizar um dos aspectos, mas realmente explorar todos os interstícios da questão e todas as contradições do termo. Algumas delas são apresentadas a seguir:

“Popular” e “folclórico”

A pesquisa e a valorização das manifestações culturais “populares” começaram a ser tema de interesse de estudiosos na Europa por volta da virada do século XVIII para o XIX, e se relacionava com o resgate dos registros da cultura “plebéia” (ou não aristocrática) e foram enquadradas na categoria do “folclore” (folk-lore). Estudos desse tipo tendiam a ver essas manifestações como “resquícios” de uma cultura passada, ultrapassada, ou “primitiva” (no caso das culturas nas colônias européias na África, Ásia e América).
A visão correspondente é de uma música popular “pura” ou “genuína”, imobilizada num passado e numa “tradição”. Mesmo formas musicais desenvolvidas no bojo de uma grande mudança social – urbanização, por exemplo – acabaram sendo consideradas formas “degradadas” da música “verdadeiramente” popular.

“Popular” x “Erudito”

A música popular pode também ser entendida como aquela que não detém o domínio técnico e sistemático de uma linguagem “erudita” – especializada – da música: normas de notação musical, regras de composição e harmonização, etc. Nessa perspectiva, manifestações “informais” da música já foram julgadas como “pobres”, “simplórias” ou “pouco desenvolvidas”, num julgamento de valor que adota como parâmetro, obviamente, a música desenvolvida na Europa.

A música popular, tomada como contraponto da erudita, levanta o problema de “quanta erudição” é permitida: compositores como Tom Jobim ou Edu Lobo, que detém absoluto domínio das técnicas e rigores eruditos, podem ser considerados populares, nesse sentido?

“Popular” x “de elite”

Outra dicotomia comum é a que coloca o “popular” num esquema de divisão de classes sociais, associado às camadas menos favorecidas. Aqui se mesclam posturas paternalistas (e autoritárias) com a perspectiva dos movimentos sociais e da esquerda: a valorização do “popular” contra os “opressores” – como nas obras de compositores como Geraldo Vandré, por exemplo.

Levanta-se um novo problema: só pode ser considerada “popular” a música produzida pelos pobres? Mas o jazz e o blues, por exemplo, assumem diferentes conteúdos (e absolutamente contraditórios) a depender da perspectiva adotada: originalmente produzidos pelos negros pobres norte-americanos, acaba sendo apropriada por parcelas das elites intelectuais, primeiro nos próprios EUA, depois na Europa e no resto do mundo (inclusive no Brasil). Podem ser considerados, o jazz e o blues feitos no Brasil, e suas formas derivadas (a própria Bossa Nova) serem considerados populares?

“Popular” e “de massa”

Sinônimos ou antônimos? Música popular é aquela consumida pelo “povo” ou isto é uma degradação interesseira produzida por uma “indústria musical”, descartável e sem valor? Existe uma música “genuinamente” popular, em contraposição aos produtos “descartáveis” da indústria musical? Como encarar brega, o sertanejo, o funk carioca, e mesmo o rock brasileiro? Afinal, cantava Adoniran Barbosa: “eu gosto dos meninos desse tal de ie-ie-iê, porque com eles canta a voz do povo”...

Popular: do ou para o “povo”?

Além da questão do consumo popular (fato relativamente novo, ligado à chamada “Segunda Revolução Industrial”, ou seja: a virada do século XIX para o XX), outra questão é a produção musical que se apropria de formas “populares” ou até “folclóricas” para a composição de peças bastante eruditas (Villa Lobos e uma série de compositores nacionalistas da mesma época do brasileiro), ou ainda uma produção que pretende instruir e educar o povo, absorvendo uma linguagem ou formas reconhecíveis pelo público “popular” para, desta forma, “elevar” seu nível ou repertório cultural – aí entra também uma função ideológica ou doutrinária qualquer (à direita ou à esquerda do espectro político-ideológico), incluindo-se desde as peças jesuíticas até os hinos revolucionários e de resistência.